Rio, 21 de dezembro de 2018

livros

E aí, meu velho?

Acabou. Ainda não de todo, mas já no fim, este ano foi como o encontro do Capitão Ahab e a mais famosa das baleias. Turbulento, tenso, imprevisível, mas diferente no fim, no qual os fatos ainda não arrastaram para as profundezas, os sonhos.

Mas foi por pouco. Você, meu velho, quase sumiu, sucumbindo ao mundo paralelo dos domínios digitais. Veja como as coisas mudaram. Antes, a palavra domínio, traduzia-se na página dos livros de aventura ou de história, narrando batalhas épicas e sangrentas entre reinos e nações. Também valorizávamos o domínio da escrita, do conhecimento, de uma língua viva ou morta, do Universo. Material vasto para escritores, sábios e curiosos.

Este domínio perdido, entre um mundo e outro que falo, foi o simplório “.com”, que não tem o valor de um sobrenome, mas vai, infinitamente, bem mais longe pela tubulação digital. Esse tal “domínio” não é meu, nem seu. É de quem chegar e comprar, caso eu não tenha pago. Assumo minha responsabilidade. Não foi por falta de pagamento, mas de conhecimento. Não me avisaram quando e onde pagar, e aí, meu velho, foi-se para um site que compra domínios pelo mundo. Levaram “eaimeuvelho.com”, mas não as nossas cartas.

Por isso, agora, depois do “.com” tem um “.br”. Só isso. Não há nesse “.br”, nenhum ufanismo patriótico de um Brasil que vai para frente e melhor. Foi apenas o jeito que encontrei para mantermos nossa correspondência, mas que não usarei como desculpas para a longa ausência de cartas.

Como disse, foi um ano ora bonito, ora enjoado, como o mar. Naveguei por caminhos novos, nem sempre só meus, mas dentro do mesmo barco. Como essa não é uma carta confessional, vamos à parte que nos importa e nos mantêm: livros e leitores.

Até nesse assunto, foi um ano contraditório. Livros e autores ótimos surgiram em profusão, de todos os lados; de todos os cantos, de todas as letras. Letras que acalentaram momentos difíceis ou que nos revelaram a verdadeira dificuldade de ser visível numa sociedade partida.

Meu pensamento e, óbvio, minha fatura no cartão de crédito, infestaram-se dessa onda de tão bons lançamentos e relançamentos. Edições primorosas, reedições de títulos esgotados, descobertas de títulos cavados no sebo virtual, ou até, a edição invejada na estante do amigo; conseguida numa operação internacional com a minha agente secreta (e sobrinha), da Alemanha para Portugal e de lá, embalada e protegida numa mala de mão, até chegar para mim. Evitou-se o fim de uma amizade do amigo que amava (e roubava) livros.

Mas nem tudo são livros. São, mais sem flores. Mesmo com tantos livros nas estantes, duas grandes redes de livraria acabaram, não porque vendiam livros, claro, mas porque investiram onde não deveriam. Esses fechamentos geraram incredulidade e um prato cheio aos terroristas digitais de plantão, dizendo que o livro físico ia morrer. De novo? Já tentaram acabar com ele mais vezes que em Fahrenheit 451. Não é ele que precisa renascer das cinzas. São as livrarias, estas sim, responsáveis pela sobrevivência de vocês. Tiveram em sua defesa, a companhia de um grande editor brasileiro que, tal como fazemos aqui, defendeu em carta, a importância da existência dos livros, sugerindo-os como presente principal de Natal, independentemente de cor, credo, editora ou autor.

Minha prática de dar livros de presente existe em todas as datas para manter e fazer leitores. Por isso, achei bastante interessante a visão da escritora e cronista que gosto muito, Ana Paula Lisboa, de que mais do que salvar editoras, devemos salvar leitores. Muitos, nunca entraram em livrarias. E se entraram, não compraram. O jovem escritor Geovani Martins, um sucesso literário deste ano que já vai, lia em livros na biblioteca do Centro do Rio, diante da dificuldade de comprá-los. Salvar é fazer leitores novos e dar aos que não podem comprar, a esperança de não perder o encanto pelos livros.

Essa carta inspirou um grande jornal a fazer o que já fazemos, meu velho; incentivar pessoas famosas a escreverem cartas para seus livros preferidos. Ora, somos então precursores desse movimento! Não tão famosos, verdade. Mas a fama é passageira. Que fiquem os leitores e os livros.

Depois dessa longa ausência de cartas, acho que esta, para terminar o ano, se basta. Falta apenas dizer que há um ano, nesta mesma data, falei do homem de barba branca cercado de livros numa esquina do meu bairro. Descobri que o nome dele é Seu João. Numa ação mais chocante do que de ordem pública, a Guarda Municipal recolheu e jogou como se vidas e histórias ali não existissem, vários livros que ele vendia para sobreviver. Seu João foi levado preso para a delegacia, sobre protestos das pessoas que o encontram ali todos os dias. Ele, me parece, foi solto. Seus livros, não.

Lutemos pelos leitores e pelos livros. Eles não contam apenas grandes histórias. Não provocam apenas grandes transformações. Livros são a parte mais real do surrealismo que vivemos. Espero que cheguem tantos e para tantos mais quanto o nosso mundo precisa.

Feliz Natal, meu velho. E um Ano Novo feito da mesma expectativa que temos ao abrir um bom livro.

L.

P.S: Não faltam listas em colunas, nem em blogs ou sites. Por isso, sugiro que cada um entre nas livrarias abertas e descubra o seu próprio livro de Natal. Não faltará argumento para você experimentar essa fascinante travessia. Salve o livro!

Rio, 3 de agosto de 2018

Captura de Tela 2018-08-03 às 4.16.48 PM

Flip, 2018. 

E aí, meu velho?

Gostaria de justificar a ausência por tanto tempo com a mesma elegância e generosidade que Rilke escreveu ao jovem poeta: “Estive todo esse tempo indisposto, embora não doente, mas opresso por uma fraqueza parecida com influenza, e que me tornou incapaz de fazer qualquer coisa”.

Buscando a mesma compreensão que o jovem poeta teve, digo que fatos novos e nem sempre bem-vindos, me distraíram e me afastaram do prazer de nossas cartas.

Estou voltando da Flip onde livros, autores e leitores ocuparam a cidade de Paraty. Lembra que falei dela um ano atrás? Pois lá fui e de lá já voltei. Como no ano anterior, novas portas se abriram para a diversidade literária, não só fisicamente, mas literalmente, com “as casas” paralelas às tendas do evento. Acho que foram vinte duas ao todo, com acesso gratuito, tornando a democracia entre livros, autores e leitores, um fato real. Editoras independentes driblaram os aluguéis caros das casas e embarcaram, literalmente e literariamente, em outra: alugaram um dos barquinhos ancorados, transformando-o em livraria e palco.

Como esta é uma carta pós-Copa, onde rolaram milhões pelos gramados russos, berço de tantos grandes escritores e nem tantos jogadores, gostaria de voltar no tempo para comentar com você, o tema de um texto que fiz e não enviei na noite em que a vereadora Marielle Franco foi assassinada. Já se vão quatro meses sem ela.

Naquela mesma noite, um jovem jogador de 17 anos com nome de poeta, atuando pelo meu time, o mais popular e de maior torcida do Brasil (e do mundo), fez dois gols, salvando esse coração aqui. De virada, o menino moleque inventou a vitória numa partida pela Taça Libertadores em um país vizinho.

Já com o seu passaporte carimbado em milhões de euros, comemorou altivo e desafiador, o lugar que alcançara e que outros sonham chegar. Abraçado ao final pela torcida adversária para selfies, fez-se astro pelo seu talento e sorriso largo aprisionado em um aparelho dental.

Representava a mais visível possibilidade de ascensão social de uma juventude que morre todos os dias nas favelas e periferias: a de ser jogador de futebol. Foi no decorrer daqueles 90 minutos que assassinos tiraram a vida da mulher que lutava por outros como ele, buscando criar chances para vencerem também fora das quatro linhas.

Não vou transformar em tristeza esta carta. Voltei no tempo para refletir sobre o que venho assistindo como uma nova porta aberta para outros jovens da mesma origem de Vinicius: ser escritora ou escritor. Desde o fenômeno Carolina de Jesus com o “Quarto de Despejo”, na década de 60, nunca tantas vozes falaram do ponto de vista e da vivência de quem é maioria no país e tem menos oportunidades. Mesmo pensando sobre a ótica de outro fenômeno, o livro “Cidade de Deus”, de Paulo Lins, ambos só conseguiram sucesso quando aprovados pela classe intelectual ou média branca, pois é indissociável a cor colonizadora da ascensão social. Separadas por décadas, as obras desses autores têm o mérito da qualidade.

A aceitação dessas obras surgiu sob a “concessão” do olhar curioso e exótico de quem assiste de cima de seu 4X4 ao safari social. Até então, a miséria e a desigualdade brasileira na literatura moravam no Nordeste. Alimentada mais pelo imaginário da dureza da terra e menos pela responsabilidade dos homens e dos governos, a miséria nordestina servia de cenário para um Brasil visto pelo sudeste rico como uma aventura em Marte.

Mas, cadê a alegria prometida dessa carta? Já chego lá, meu velho. Lembro que a  Cidade de Deus não leu “Cidade de Deus”. Óbvio. Livros são caros e o incentivo à leitura, raro. Ainda mais quando o ambiente desses jovens é feito de sobrevivência e não de novas vivências. A Cidade foi ao cinema, mas não levou seus moradores.

A parte alegre da carta é que isso está mudando. E mudando por dentro, não por fora. Mudando a partir de eventos como a Flup, a Festa Literária das Periferias, que além de juntar autores do asfalto com leitores das áreas segregadas economicamente, geram, com suas oficinas, uma literatura adormecida e pronta para abrir as portas para o mundo. Não foram as grandes editoras que os lançaram; eles se lançaram em edições e editoras criadas dentro do seu universo. Inverteu-se a ordem das coisas: não pediram autorização; chegaram chegando mesmo.

Certamente, nunca teremos tantos escritores e escritoras como jogadores de futebol. Teremos sim, milhares ainda correndo da violência ou indo ao seu encontro.

Mas saber que as letras, essas que pareciam apenas direito de quem tem a mesma cor que o papel, ganham novos donos e com isso, transformam a caminhada, inspirando outros a fazerem o mesmo, revelam que, se não produzimos tantos leitores como deveríamos, produzimos jovens e talentosos autores que precisamos.

Assim como os grandes times europeus levam meninos para o mundo, a ordem natural são as grandes editoras levarem autores para o mercado daqui e de fora. O déficit social não será resolvido com palavras. Mas é um tapa na cara saber que o “país de analfabetos” gera jovens e promissores escritores e escritoras quando há oportunidade.

Mesmo sendo de ação, Marielle acreditava no poder das palavras. Eles e elas são a prova disso.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

P.S:

Ana Paula Lisboa, Geovani Martins, Jessé Andarilho, Ana Paula Maia estão entre tantos outros nomes que surgem na favela, periferia ou subúrbio, encontrando na literatura a liberdade pela palavra. Merecem ser lidos, conhecidos e ouvidos. Não são apenas importantes pelo que escrevem, mas também pelo que provocam. Giovani Martins, o mais novo fenômeno literário vindo da periferia com o sucesso de “O sol na cabeça”, disse numa palestra algo que o deixou muito feliz: uma jovem leitora falou que o seu livro fora recomendado em sala de aula pelo professor. E moradora de Bangu como ele, sentiu-se orgulhosa e representada. Imagine quantos novos escritores e poetas não serão inspirados por isso, meu velho?

Rio, 11 de maio de 2018

BLUE 1

Blue, o gato que lê.

E aí, meu velho?

Descobri semana passada que existe alguma vantagem na preguiça. Se por um lado ela nos retarda decisões, por outro ela pode nos salvar da falha e da retratação.

Veja o que aconteceu com essa carta. Eu a tinha iniciado dizendo “tenho duas notícias que podem lhe interessar”. Uma era boa e a outra, não de todo ruim.

A preguiça, esse bicho-pecado, acabou evitando uma informação falsa e uma decepção certa. Antes de cair por terra, a primeira falava sobre o aumento das vendas de livros no início de 2018, algo que já ocorrera no ano anterior. Dizia a notícia que o crescimento fora puxado pela demanda escolar, quando as crianças e adolescentes coçam os olhos remelentos pela manhã, na luta perdida de evitar o despertar sonolento e o descolocar “walking dead” até as salas de aula.

O interessante é ver que, mesmo em queda, fenômenos vinham segurando as vendas. Em 2015, os “livros coloridos” salvaram o mercado de um desastre maior. Em 2016, foram os youtubers, nascidos na fama digital, mas confiantes que com o papel, entrariam para a história. Veio 2017, e aí sim, vocês foram mais longe, sem um fenômeno que justificasse. Mas alegria de leitor, às vezes, dura pouco. Enquanto o “Painel de Vendas de Livros” dava um like de positivo, dois dias depois, a “Pesquisa Produção e Vendas do Setor” dizia o contrário.

Mesmo derrubando o nosso castelo de livros, a pesquisa que dizia que as coisas haviam melhorado, trazia um dado importante: os livros mais vendidos em 2017 foram os de desenvolvimento pessoal, literatura brasileira e religião. É possível imaginar, numa rasa elucubração, tipo mesa redonda de futebol, que as pessoas, ou melhor, os brasileiros, estavam buscando a salvação, fosse na terra ou no céu. Claro que é bom ver que a literatura brasileira ganhou da estrangeira, mesmo que seja uma competição sem propósito, pois quanto mais livros e leitores, melhor, aceitando-se inclusive os piores, que não é o seu caso, meu velho. Espero também não ser o meu.

Ah, sim, mas, qual era a segunda notícia mesmo?

Não diria desanimadora, porque não é nova. Eu a ouço desde que o livro é livro. A manchete aterradora: “Crianças e adolescente estão lendo menos”. E aí, seguia uma série de estatísticas, do quanto era esse “menos” por faixa etária, que gêneros predominaram no gosto dessa turma dos 5 aos 17 anos, mas (e todo “mas” pode ser “mais”), 40 a 47% de crianças e jovens leram por gosto ou espontaneamente.

Gostei do “por gosto ou espontaneamente”. Achei que isso só acontecia nos meus sonhos de leitor apaixonado. Você deve estar pensando na minha inocente tolice, parafraseando “o amor (de leitor) é cego”. Mas quando li em seguida que “a obrigação de ler o livro por exigência da escola é a maior motivação de crianças e adolescentes”, imaginei o sargento motivando a tropa a se arrastar na poça de lama como se tivessem implorado para estar ali.

Obrigação e motivação são irmãs brigadas. Se eu sou obrigado, não preciso ser motivado. O motivo é o poder que outro tem para obrigar. Motivação combina mais com inspiração. Eu acho que a leitura na escola é ainda uma das principais portas para o leitor iniciante entrar no mundo dos livros. Sendo verdade que o brasileiro lê pouco, não se pode contar apenas com pais incentivadores. Hoje, então, é mais fácil o pai ou mãe incentivarem o filho a meter a cara em um celular pelo exemplo que dão ou pela desejada paz à mesa do almoço no restaurante. Pais que pouco leram é como um médico fumante: não convence o outro pelo que dizem, mas pelo que fazem.

Confesso: escapei de ser um odioso inimigo do Drumond quando, na tarefa de um domingo à noite para a aula de português na segunda, tive que buscar o significado de 200 palavras no dicionário que compunham a métrica de uma crônica “verborrágica” do grande poeta e cronista. Toda vez que vejo sua estátua, sentada no calçadão de Copacabana, olhando para a esquerda à espera de quem virá prosear, pergunto-me se ele sabe quanto o odiei naquela noite, temperada pela vinheta sonora do Fantástico que chegava da TV na sala. Talvez esteja à espera para explicar que não tinha intensão de acabar com o meu domingo. Mal sabe ele que o amo. Já o Fantástico, não consegui perdoar até hoje.

Esse é um caso em que a melhor intensão de motivar virou uma obrigação que poderia ter me afastado de Drumond para sempre. Nem isso aconteceu nem transferi o ódio para a minha professora de português, que era excelente.

Numa outra ocasião, já na fase do 2º grau (hoje ensino médio), o professor mandou ler apenas “Os Sertões” de Euclides da Cunha para uma classe apavorada.  Com a mesma coragem de um sertanejo que atravessa a aridez do solo seco, passei pela “A Terra”, conheci “O Homem” e encarei “A Luta”, num prazer literário de uma obra considerada pioneira do pré-modernismo. Os meus 15 anos na época tenderam, naturalmente, a preferir a terceira parte da luta entre Canudos e as tropas do governo. Mas ainda assim, fiquei extremamente impressionado pela capacidade de mostrar uma terra e um povo da qual eu pertencia, mas não imaginava, como jovem brasileiro, que existia.

Qual é a conclusão disso, meu velho? Não sei. Sei que criar o hábito da leitura não é fácil. Tenho hoje um adolescente perto de mim e estou tentando achar um jeito de motivá-lo mais do que convencê-lo a ler. Ainda não consegui o sucesso que queria, mas sinto que há uma brecha ali. Não espero que ele seja um obsessivo como eu. Mas que os livros, realmente, tenham a chance de se mostrarem bons companheiros dele.

Outro dia, quando o ouvi comentar que ele estava guardando dinheiro, brinquei dizendo que ele poderia me dar um livro de presente no aniversário, “que eu tinha poucos”. Ele, daquele jeito sutil de pré-adolescente, disse: “pra quê? Você já vive cercado de livros. Pra onde a gente olha, só tem livros”! Eu estava quase me sentindo culpado, mas lembrei do meu pai e da estante lá da minha infância e mandei: “Então, aproveita e tenta descobrir algum deles”.

Mais uma vez, a minha carta-preguiça ganhou tempo e três dias depois, ele veio me dizer que tinha lido 50 páginas de um livro indicado pelo colégio. E me perguntou: “Pra que a gente lê?”

É, meu velho, a jornada da leitura é mais que um número estatístico. Existe esperança nessa travessia.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

P.S: O livro que ele está lendo se chama “As cores da escravidão” de Ieda de Oliveira, da FTD Educação. Eu o li e é uma história bastante interessante do menino Tonho que convence um amigo a seguir um “gato”, homens que aliciavam pessoas para trabalharem em fazendas em um regime escravo. O gato mal é uma analogia ao Gato de Botas que trazia riqueza. A inocência dos sonhos que o menino guarda das histórias contadas pela avó se perde no decorrer da história. Mas o final mostra que há esperança quando pessoas boas cruzam o seu caminho. Estou ansioso para saber das próximas páginas que ele leu, meu velho.

Berlin – Manguinhos, 20 de abril de 2018

IMG_8956

Ilustração da capa do livro “Vietnã em Chamas”, de W. Cronkite (1966)

E aí, meu velho?

Faz tempo que não nos falamos. Ou escrevemos. Ou simplesmente, tentamos refazer o caminho que sempre seguimos: eu falando de livros e você ouvindo, pacientemente, minhas divagações.

Outro dia, pensei sobre o que existe de verdadeiro em falar de vocês. Não se preocupe que ainda não desisti de algo que me dá maior prazer: ler. Comprar também. Nesse quesito, tenho sido até um pouco mais fiel, pois as ofertas são muitas, a qualidade cada vez mais sedutora e a tentação, quase incontrolável. Se é verdade que um escritor se debate diante da página (ou tela) em branco, um leitor como eu, sufoca e desespera-se pela enormidade de páginas já escritas e que merecem ser lidas. Não há tempo a perder, mas como não perder, diante da indisciplina e dos desvios tecnológicos do caráter?

Não diria que é uma luta inglória, porque há lutas mais legitimas, difíceis e necessárias, do que conseguir pôr em dia, a angústia literária. Não faltam temas dolorosos para bradarmos palavras de ordem e porque não, até de desordem, diante do cenário lá fora que muda o daqui de dentro.

Mas a luta pelos livros sempre me lembra a cena icônica da queima de exemplares da sua espécie pelos nazistas, em frente à Faculdade Humbolt, em Berlin. Tenho essa cena clara, já tão falada e filmada, como a prova real de que as ideias podem resistir mesmo não existindo mais fisicamente. É óbvio que dói. Páginas queimadas assim são como um parque ou restaurante abandonado à beira da estrada: alguma coisa falhou. Tenho um certo fascínio por cenários desse tipo. Deve se explicar pelo excessivo consumo na infância de livros de suspense, policial e de aventura.

Livros não sobrevivem apenas pelo gosto do leitor. Há mais leitores do que imaginamos, mas bem menos do que precisamos. Imagine então, aqueles que deixam queimar ou incendeiam por vontade própria os livros? Como defender vocês? Na mão, na arma, no argumento? Sim, porque nem todos percebem o passo que damos para trás quando certos objetos deixam de existir.

Voltando ao parque que falei, esquecido à beira da estrada. Posso dizer que não foi só o concreto, a pintura e o dinheiro investido que se perdeu. Foi a brincadeira e a fantasia da infância ser real quando nos tira do chão numa roda gigante.

Tenho tido a oportunidade de lembrar de momentos meus da infância diante de alguns novos fatos. Mas o porquê disso fica para uma outra carta.

Falei do parque, mas estou já falando de vocês, livros. Ou melhor: das casas diversas que habitam. Naquela Berlin dos anos 30 não houve salvação, pois todos ali acreditavam no poder do fogo para incendiar o discurso das ideias puras.

As fraternidades estudantis organizaram e participaram dessas queimas. Eles não eram contra os livros. Eram contra “aqueles livros”. Goebbels, o mentor da propaganda nazista, diz no seu discurso na praça Opernplatz, diante dos livros que queimam “A hora tardia de confiar às chamas, o lixo intelectual do passado”. Como simbolismo é tudo numa doutrina, 20 mil livros são retirados da Universidade Humbolt onde grandes intelectuais lecionaram, e ali, na praça em frente, o fogo intencional fez a sua parte.

Tive a chance de estar nessa praça e entrar de carona numa conversa de um guia, falando sobre a sala branca subterrânea aos meus pés. Visível através de um vidro, prateleiras vazias representavam o momento simbólico de que o pensamento na Alemanha naquele momento, retornara ao estágio zero.

Meu velho, foi muito emocionante perceber o que representava a falta de vocês na formação de um pensamento de uma nação. A epígrafe visionária de autoria de HeInrich Heine de 1820, escrita ali numa placa, antevia:   “Aquilo foi somente um prelúdio; onde se queimam livros, queimam-se no final também pessoas”.

Pois bem. Muitas décadas depois, uma mulher que se estivesse naquela praça certamente seria vítima da perseguição eugênica do nazismo (que hoje ainda existe com nomes diferentes), defendeu e lutou para preservar estantes cheias de livros de uma biblioteca estadual num bairro escrito pela violência da desigualdade no Rio de Janeiro.

Na ausência do governo, ela usou a única arma capaz de manter intocável, os livros e a biblioteca que os guarda em Manguinhos: negociou a sua manutenção com o poder do tráfico local, mantendo a biblioteca intacta por 1 ano e quatro meses. Com as chaves na mão e um corpo de balé de meninas (ela é a diretora do Ballet Manguinhos), ocupou a biblioteca até devolvê-la, recentemente, ao Governo do Estado. Justo ou não, o chefe do tráfico foi mais sensível aos argumentos dela do que o poder eleito.

Essa defensora dos livros, que teria moral para dizer que, onde se guardam livros, guardam-se vidas, se chama Daiana Ferreira de Oliveira, negra, mãe e com 29 anos de coragem e sabedoria, que calaria Joseph Goebbles em sua perspectiva purificadora.

Você deve estar se perguntando se ela não mereceria dar nome à biblioteca, já que sem ela, a mesma não existiria. Também acho. Isso aconteceu, mas de uma forma diferente. Em vez do nome dela, essa casa de livros, ganhou o nome de Biblioteca Parque Vereadora Marielle Franco, uma homenagem a outra mulher corajosa que teve sua vida tirada um mês atrás, pela violência de um poder miliciano.

Mas como dizem aqui, somos todos Marielle. E assim, também somos todos Daiane. Vida longa, meu velho.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

Dizem que podemos aprender com os erros do passado. Ando desacreditando dessa frase. Ainda assim, vale tentar. Dois livros falam melhor sobre isso que escrevi. Um deles se chama “Livros em Chamas: A história da destruição sem fim das bibliotecas”, de Lucien X. Polastron, da José Olympio. O outro, que fala ainda mais próximo a você, é a “História Universal da Destruição dos Livros – Das Tábuas Sumérias à Guerra do Iraque”, de Fernando Baez, pela Ediouro. Não deve ser fácil para você, saber que outros iguais, sucumbiram a ignorância e a violência. Infelizmente, meu velho, a gente também se acostuma a isso.

Rio, 23 de fevereiro de 2018

700_500_Placa_Decorativa_de_Metal_30x40cm___Patente_Guitarra_Fender_1951_2391_1

E aí, meu velho?

Essa carta já mudou de intenção algumas vezes e não sei como irá acabar. Dizem que alguns escritores passam por isso. Não que me ache. Apenas cito o que já li ou ouvi em palestras sobre o tema. A história ganha vida própria e vai em frente, surpreendendo o seu próprio dono. Acho que é parte do que somos mesmos; autores ou atores com domínio ou não de nossos caminhos. Mas fico por aqui nessa divagação, antes que esta carta tome o rumo da autoajuda como que seu eu tivesse algo mais profundo a revelar, me candidatando a youtuber. Correria o risco de ser tão pouco “seguido” quanto lido. Fiquemos na carta.

Era para ter começado falando do quanto vocês, livros, conseguem resistir aos modismos ou a história que transforma em obsoleto, tudo que não veio do hoje. Nada contra o agora. Ele foi o ontem, ontem.

Li no jornal que as famosas guitarras Fender e Gibson podem acabar, fechar as portas e calar. Entre as várias explicações, má administração, não renovação do público consumidor, prejuízos imensos acumulados, perda de mercado para a música produzida digitalmente em programas de computador. Seduzidos pela eficiência prática da tecnologia, os DJs tiraram a necessidade de alguém de pé por trás de uma guitarra. Programas digitais reproduzem uma filarmônica sem ninguém no estúdio.

Ao comentar com um amigo músico, ele foi bem taxativo: os chineses produzem guitarras com a mesma qualidade de som e vendem por 300 dólares contra milhares de dólares dos ícones americanos. Made in again.

De todas as causas possíveis, a que mais falou comigo foi a de que os jovens, empolgados num primeiro momento em serem o novo Eric Clapton, desistem e nunca mais voltam a comprar uma nova guitarra. Desejo e infidelidade, se fosse o título de um livro de Jane Austen.

Foi aí que correlacionei guitarras e livros. Nesse momento em que a tentação digital nos faz infiéis em segundos, saber que as vendas de livros no Brasil aumentaram (e não apenas os escolares); que pelas Bienais passaram mais de meio milhão de pessoas; que em Flips, FLups e outros “Fs” de literatura, faltam tendas e assentos, mas sobram pessoas para ouvir sobre vocês e seus autores, resta dizer: salve o livro.

Acreditando cada vez mais em todas as frases apaixonadas de pessoas que falam sobre a originalidade e o poder do livro, resgato uma de Millôr Fernandes: “Livro não enguiça”. Também não fica velho, mesmo quando amarelam as páginas. E não perde sua razão como objeto, seu cunho emotivo-visual. Um livro só precisa do leitor. Não exige prática nem habilidade. Só precisa que governos alfabetizem para que todos possam ser leitores.

No meio disso tudo, de guitarras caladas (torço que não, pois não é um instrumento que deixa de ser tocado. É a memória da música que deixa de ser ouvida), uma vlogueira (o vocabulário anda dinâmico e inventivo no mundo digital) muito conhecida, bem-humorada, inteligente e cheia de seguidores (inveja), alcançou até esse momento que escrevo, 1, 6 milhão de visualizações em um de seus posts. Você talvez a conheça aí da sua estante, meu velho, pois vlogueiras e youtubers também escrevem em papel, publicam livros e vendem, vendem muito, impulsionados pela mídia digital.

Mas falemos do 1,6 milhão de pessoas que deram aquela olhadinha no vídeo. Se alguém estivesse lendo essa carta, poderia ser um desses que viu ou dos milhares que souberam por meio da notícia. Mas o que fez esse vídeo ir parar num jornal de grande circulação digital, já que ela tem milhões de seguidores e não precisa disso?

Vocês. Ou melhor: um semelhante seu, meu velho. A surpresa de que um livro ainda é capaz de arregimentar seguidores.

Seria limitante chamá-lo de infantil, só porque tem pouco texto e um desenho simples. Simples e genial.

A vlogueira fez com os adultos o que devemos fazer para que as crianças comecem a gostar de livros: ler para elas. Em quase nove minutos, ela lê e mostra o livro. Só isso. Claro, do jeito agradável, humorado e emocionado que ela sabe e sente ao fazer a leitura.

Leitura que levou o livro “A parte que falta” do americano Shel Silverstein, lançado em 1976 pela Cosac&Naify e reeditado pela Companhia das Letrinhas em 2018, ao 1º lugar dos mais vendidos no site brasileiro da gigante Amazon. Óbvio que há uma ligação direta de que o livro descoberto e desejado no ambiente digital favorece de imediato, um “botar no carrinho”. Nossa ansiedade não pode esperar pela ida a uma livraria física.

O que me anima nessa história é que a Jout Jout ( Julia Tolezano, escritora e jornalista  para os íntimos do mundo real), leu um livro. Um livro por 9 minutos. 9 minutos que, certamente, foi “lido” pelo “vleitor” até o final. Porque era um livro, uma história, um encantamento que precisa ser perseguido até a sua conclusão.

Os posts da Jout Jout já são muitos vistos na sua pauta da vida diária e feminina.  Talento que gerou 1 milhão de inscritos no seu canal no YouTube. Mas, certamente, ela não imaginaria que ler um livro daria no que deu. Pelo menos em mais 600 mil novos visualizadores. Ela usou seu canal em algo que nos faz iguais, sem saber quem somos, que cor temos, que cartilha rezamos: a paixão do leitor pelo livro. Paixão que fez o próprio câmera que gravava o vídeo, interagir, rir e perguntar sobre uma borboleta que surge no meio da história.

Como disse no início, essa carta não tinha uma intenção clara. Mas a parte que falta para terminá-la é, mais uma vez, dizer: obrigado meu velho.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

PS: Já falei aqui sobre livros infantis. Este mesmo que Jout Jout leu, já esteve no meu radar, mas sucumbiu diante de outras prioridades. Diria que ele também é uma parte que falta lá na estante. Mas já que falei de que livros sobrevivem fora dos modismos (mesmo que alguns o sejam), vale recomendar “Hit Makers – Como nascem as tendências”, de Derek Thompson, da Harper Collins. De uma forma bem leve e interessante, o autor fala de que nada “viraliza”; há sempre um movimento nas sombras que transforma produtos em fenômenos culturais. Concordo. Se Van Gogh não tivesse cortado a orelha e morrido sem vender um quadro, as pessoas se interessariam por ele? Mas não se preocupe, meu velho. Não pretendo chegar tão longe para que me notem.

 

Rio, 16 de fevereiro de 2018

untitled-1-261x300

E aí, meu velho?

Nunca imaginei que começaria uma carta para você falando de bananas. Talvez você já tenha visto alguma passando aí pela frente da estante onde habitas, simplesmente descascada para ser comida ou misturada em um pote numa salada de frutas. Tive um amigo na infância que comia banana com feijão. Confesso que a cena causava certa aflição nas minhas papilas gustativas, pois visualmente, me parecia incombinável. Hoje, quando olho certos programas de gastronomia, acho que meu amigo era um visionário e, quem sabe, um promissor chef. O que é um feijão com banana diante de um churrasco de melancia?

Mas como o meu forte gastronômico é comer e não fazer, volto a falar da banana do início que foi parar na literatura de duas formas diferentes.

A primeira, surpreendentemente, invadiu as páginas de um parente seu, habitante das nobres prateleiras da biblioteca da Universidade de Manchester, no Reino Unido. Os funcionários descobriram a casca inteira da fruta dentro de um exemplar sobre direito e geopolítica, mas especificamente, nas páginas que abordavam a crise financeira internacional.

A banana em questão, ao ser divulgada na web como uma forma não recomendável de marcador de livros, segundo a biblioteca, ganhou projeção e interesse, gerando uma brincadeira nas redes sociais da própria entidade. Os internautas foram perguntados se queriam ver a foto íntima da banana com o livro. A resposta não poderia ter sido outra: 1.500 pessoas votaram sim e o nudes da banana foi publicado.

Podemos até especular inutilmente que o leitor, ao se revoltar com as páginas que falavam sobre a crise econômica, viu como única forma de protesto, tacar a casca da banana recém-devorada contra o mercado financeiro descrito no livro, já que não tinha nenhum representante do sistema por perto. Outra questão também relevante ao fato é que uma banana literária pode ter mais apelo do que o autor da obra, pois nem o da banana foi identificado, muito menos o do livro. Não há comprovação se as 1.500 pessoas votantes aumentaram a venda de bananas ou de livros.

Mas a nossa carta banana não para por aí, meu velho. Enquanto um leitor dá uma banana para o livro, outro dá livros de banana. Pelo menos desse, sabemos o nome.

O pequeno Igor Zuniga de cinco anos, morador de Campo Limpo Paulista, SP, decidiu ajudar a mãe a arrumar a casa de um jeito bem mais produtivo. Na entrada da sua casa, colocou um cartaz simples onde se lê “Troca de livros infantis”. Esse pequeno aprendeu a ler com cinco anos e prefere livros a brinquedos de presente. Se você está se perguntando sobre a banana dessa história, explico.

Igor é um confesso fã da série “Diário de um banana”, do cartunista norte-americano Jeff Kinney. Nesse caso, a banana não é um personagem infiltrado nas páginas do livro. É uma deliciosa e bem-humorada abordagem das dificuldades de ser uma criança e seus acertos e desacertos infantis. Eu mesmo, já longe dessa fase, li algumas páginas sobre esse “banana” e me diverti muito. Não progredi mais na leitura e, portanto, não posso garantir que passaria incólume ao me identificar nas escorregadas como um banana na infância. Por outro lado, saber que milhares de crianças são levadas à leitura por um garoto atrapalhado, mas sagaz, na melhor estirpe dos personagens infantis, dá vontade de arrumar um tempo que já não temos e dedicar à leitura que nos levasse para a dimensão da infância.

Por ora, vamos vivendo momentos em que políticos dão bananas para o planeta e para o nosso dia a dia. E nós, mais bananas ainda, estamos aceitando descascar os abacaxis que eles nos lançam.

Mas com ou sem bananas, ainda existem os “Igors”, distribuindo livros às pencas para novos leitores.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

P.S: Quando vejo o Igor distribuindo livros infantis, nada mais justo do que lembrar com atraso, que no dia 7 de janeiro comemorou-se o Dia do Leitor. No mesmo período, foi lançado o livro “O Leitor como Metáfora: o viajante, a torre e a taça”, de Alberto Manguel, pela Editora Sesc SP. Não tive a oportunidade de ler, mas está na fila para ser comprado, não a preço de banana, infelizmente.

Rio, 21 de dezembro de 2017

IMG_7581

E aí, meu velho?

Esta carta, provavelmente, a última do ano, vem acompanhada da foto de um homem de barba branca. Não sei seu nome, não sei sua idade, mas podemos chamá-lo de um bom leitor. Como tantos, mas não como todos, ele vive na esquina de uma rua onde o valor do IPTU urra como o mais caro desta minha cidade maravilhosamente quente pela natureza do clima e dos homens.

Desculpe pela foto de baixa qualidade que não faz jus ao momento que presenciei.

No dia em que fotografei o nosso bom velhinho leitor, ele tinha um sorriso anestesiado pela leitura da história. Ele não estava ali, sentado à sombra. Ele estava em algum lugar que aquele livro aberto, como uma porta, o levara. O sorriso tinha aquele convívio com o segredo de só quem sabe o que está se passando naquelas páginas é capaz de desfrutar. Enigmaticamente feliz.

Quase perguntei quem ele era. Seu nome, sua história. Mas preferi mantê-lo no limite do romantismo de quem ama livros. Romantismo que dá a vocês, o poder de abrir universos paralelos na nossa imaginação. Saber da história dele talvez fosse quebrar tudo que a minha imaginação era capaz de construir sobre aquele momento.

Posso colocá-lo num mundo trágico ou cômico, numa jornada de aventuras ou sofrimento. Ali, sem saber quem ele é e de onde veio, o transformo num Jean Genet, em um Lord Jim, em um João Grilo, em um rico pobre; faço dele um personagem literário.

Há claro, a possibilidade de se encontrar na sua própria história, algo mais interessante do que a minha limitada imaginação é capaz de criar. Talvez, se reencontrá-lo, baixe-me o espírito jornalístico à la Revista Piauí (que por sinal, tem a sua banca própria do outro lado da rua), fazendo surgir a real história de bom velhinho leitor. Temo sempre que ela macule o meu romantismo. Mas a probabilidade do nosso amigo da foto possuir uma história tão boa para um livro também é grande.

Enquanto permaneço na minha dúvida entre ser um Gay Talese ou um mero espectador, me pergunto por onde andam tantos leitores que só precisam receber um livro. Encontrá-los fora do ambiente tradicional; da biblioteca, da cadeira de praia, da poltrona de casa, do travesseiro na cama, do metrô ou do ônibus.

Já li sobre uma leitora que, entre o intervalo de limpar o banheiro feminino em um bar no bairro do Flamengo, lia livros em vez de posts no Facebook.

Livros não são feitos de autores. São feitos de oportunidades dada aos leitores.

Por isso, meu velho, não desistamos do leitor. Ele é capaz de surpreender o olhar preconceituoso que temos sobre para quem o livro existe. Como se a posição na escala social nos desse mais leitores, só porque os livros vivem nos metros mais caros da cidade, em belas estantes, tão decorativos às vezes, como um vaso de flores.

A estranheza que pode nos causar um morador de rua (quando olhamos para ele) lendo um livro, vem da mesma fonte que não acha possível uma criança negra estar numa livraria de shopping escolhendo um livro para a sua mãe comprar. Incomoda saber que certos objetos possam transitar em outros grupos que não os selecionados.

Na minha adolescência, os sebos do centro da cidade do Rio, eram o meu parque de diversões. Saía do subúrbio e passava horas lá, retornado com menos centavos no bolso e livros a mais. Naquela época, centavos compravam livros. Alguns clientes levavam livros de bolso usados para atravessar a maçante viagem de ônibus. Outros, buscavam relíquias. Eu, tentava preencher minha compulsão (nunca esgotada), focada naquela época, na literatura policial.

Havia livros, havia sebos, havia leitores. Mas confesso que não me lembro de um sorriso tão enigmático como o do nosso velhinho de barba branca numa esquina de um bairro “fino”. Talvez existisse; o meu olhar é que não.

Ainda penso em perguntar quem ele é. Estando lá na esquina, levar um livro de presente de Natal para ele. Se fizer isso tudo, talvez consiga dar o próximo passo e perguntar sobre aquele seu sorriso enigmático. Como o livro que ele lia era da Agatha Christie, talvez a resposta seja o próprio enigma.

Até a próxima página do novo ano, meu velho. Um grande Natal e nos lemos em breve.

L.

P.S: Já leio sugestões natalinas para presentear com livros. Estão nas colunas, nos editoriais, nas vitrines das livrarias. Se eu pudesse (e se todos quisessem), presentearia sempre com livros. Um presente que se usa e que se passa para frente. Que como as roupas, tem tamanhos diferentes, mas não saem de moda (os oportunos livros, não os oportunistas). Inspirado pelo que o nosso bom velhinho leitor estava lendo, vale lembrar que a Agatha Christie já vem ganhando reedições muito bonitas, vendidas em box com três livros, da editora Nova Fronteira. Confesso que gosto de Agatha, li muitos, gostei de uns mais do que outros, mas não sou aquele fã que a colocaria como uma das minhas leituras policiais prioritárias. Mas respeito muito o trabalho da Dama do Crime (não que ela, de onde esteja, se importe muito com a minha opinião). Ainda inspirado no personagem real dessa carta, sugiro um livro que me foi indicado numa manhã de sábado pelo livreiro Marcelo, da Travessa de Ipanema. É mais um daqueles livros que mostram a superação de um sobrevivente sem teto, sendo que este, numa cidade não menos cara que o Rio. Desenhando (maravilhosamente) prédios numa esquina de Londres, essa história de superação, como não poderia faltar, é vivida em parceria com o seu melhor amigo: um cão staffordshire (aparentado do pitbull). Tal como ele, rejeitado não pelo que sabemos deles, mas pelo que fomos ensinados a imaginar sobre moradores de rua e cachorros com cara de mal. “John & George – O cão que mudou a minha vida”, da Fábrica 231/ Rocco, se lê na velocidade de quem para numa esquina. Pelo menos, foi assim comigo. O final é de Natal: feliz. Mas a escrita deliciosa e a história artística que envolve a amizade, me faz pensar que talvez, dentro daquela mochila que acompanha o bom leitor velhinho ali na esquina, residam algo a mais do que uma camisa para trocar, um par de meias e uma cueca. Talvez. Ou eu esteja, apenas mais uma vez, criando uma defesa romântica para não ter que me confrontar com algo menos ilusório que a minha imaginação. Não sei até quando resistirei sem perguntar para ele.

Lisboa, 24 de novembro de 2017

IMG_8008_reduzida

E aí, meu velho?

Já notou que minha periodicidade com as cartas não é mais a mesma? Coisas, meu velho, coisas. Que me ocupam mais a mente que o tempo, acabando por influenciar na nossa correspondência.

Mas vamos falar das boas. Nas nossas cartas, coisas boas são livros, livrarias e leitores. Pois este lugar onde estou de volta um ano depois, continua me surpreendendo pelo amor aos livros e a presença de livrarias. Comparo com a principal referência daqui: há tantas moradas de livros quanto casas que vendem pastel de nata.

Lisboa ou Porto? Também, mas não só. Em todas as cidades que fui nesta viagem a Portugal, há livrarias. Claro que as duas primeiras detêm a maior quantidade, mas a qualidade está por todo canto (pelo menos comparada as que conheci, nem tantas quantas gostaria, mas sempre boas).

No Porto, encontrei duas livrarias a menos de 50 metros uma da outra, por exemplo. No Rio, só farmácias conseguem tanta proximidade. Mas não curam como um bom livro. Há pelo menos, 300 livrarias por essa cidade tão charmosa e boêmia.  Vão além da sempre bela Lello, da qual conversamos nas primeiras cartas.

Em Évora, o charme de uma livraria que vende “balas” de poesia na porta, nos diz que abrigar letras para que outros possam provar é de uma generosidade que beira quase o humano.

Ou em Óbidos, vender legumes e livros num mesmo espaço traduz, claramente, que o corpo exige alimentos diversos e divertidos.

Ainda assim, diante de tantos exemplos inesquecíveis, falar em abrir uma livraria é de uma loucura exemplar, dizem muitos. Mesmo não sendo uma verdade, é compreensível ligar livros e loucura.

Escritores são loucos por escreverem quando se afirma que ninguém lê. Editores são loucos por vomitarem livros e mais livros num mundo de aplicativos para todos os males. Leitores são loucos por lerem quando se diz que não há tempo a perder. Livrarias então, são verdadeiras casas de loucos e loucuras, enfileirando por prateleiras, centenas, milhares de outros como você, meu velho.

Diante dessa sandice generalizada, desse hospício de livros, recomenda-se uma expressão que li aqui: LER DEVAGAR. Compreensivelmente, é um nome de uma rede de livrarias. E, o que é que um livro pode fazer de melhor por nós, além daquilo que conta em suas páginas, senão, desacelerar o nosso caos?

Conheci duas livrarias que nos falam para LER DEVAGAR. A primeira delas está numa ex-fábrica abandonada que virou polo de criatividade, gastronomia (de devorar devagar também) e outras artes, a LX Factory, em Lisboa. Entre lojas, escritórios, cafés e restaurantes, está lá, a LER DEVAGAR. No centro e suspensa num jirau, uma imensa rotativa de impressão conta que dali, já saíram coisas boas e ruins. Duas imagens pendulares voam no teto, criadas pelo artista italiano Pietro Proserpio, que estava lá no dia em que fui. Essa que está na foto que enviei aí em cima, é uma homenagem dele ao eterno e sempre presente nestas terras, Fernando Pessoa. “A bicicleta voadora” conduzida por uma musa é, segundo o artista inventor, uma homenagem ao poeta, pois “qual o melhor lugar para a alma do poeta repousar senão numa livraria?”.

Outra LER DEVAGAR que me emocionou foi a que existem em Óbidos, uma cidade medieval, cercada por uma muralha e que, assim como em Paraty, também realiza sua feira literária todo ano, em outubro. Não cheguei no tempo certo, mas pelo menos, pude ir lá e descobri que a LER DEVAGAR, busca sempre, edifícios que contam histórias. Isso explica o fato dela estar dentro de uma igreja. Sim, ali se lê mais do que o livro mais vendido no mundo.

Pois bem, meu velho. Essa carta é apenas para lembrar que nessa terra de cá, vocês têm muitas moradas. Escritores da terra têm seus rostos mostrados em prosa, verso e lembranças, tal como se fazem com os artistas hollywoodianos.

Aqui há tantos devotos de Fátima quantos de Pessoa, Camões e Saramago, para ficarmos só nos mais famosos. Aqui há tantos loucos como nós, meu velho. Aqui, pode-se morrer de ler.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

P.S: Há muitos escritores para se descobrir em Portugal. Especialmente, dessa vez, tive o prazer de encontrar em páginas e mais páginas, Afonso Cruz. Estou começando a descobrir sua obra e, seguindo a recomendação de ler devagar, comecei por uma pequena joia, chamada “Os livros que devoraram meu pai – A estranha e mágica história de Vivaldo Bonfim”. É a verdade de quem ama ler: aquele que se entrega ao livro, não volta nunca mais a ser o mesmo. Levo mais dois na bagagem do viajante, como diria Saramago. Infelizmente, não encontrarei na volta, nossos grandes escritores espalhados pela cidade, além do território das livrarias. Vale voltar pelos que nos esperam; dói pelos que não estão. Às vezes, é triste regressar, meu velho.

IMG_8168_reduzida IMG_8173_reduzida IMG_8184

Em Óbidos, ler devagar é sagrado e alimenta o espirito.

Rio, 27 de outubro de 2017

calendario

E aí, meu velho?

Espero que estejas bem. Ao ver a data da última carta, não imaginava que tanto tempo já havia se passado.

Se você me perguntar porque fiquei um mês sem mandar uma carta, poderia desfilar um monte de justificativas como fazemos quase sempre para explicar coisas indesculpáveis.

Do tipo: “estão querendo começar uma guerra atômica. Para que escrever uma carta se vai tudo virar pó mesmo?” Em um mês, o mundo podia ter acabado e nós nem teríamos dito: “Valeu. Foi bom enquanto a leitura durou”.

Ou: estão acusando a arte de ser a causa de todos os males morais e doentios da nossa sociedade. Vai que interpretam algo numa de nossas cartas e nos mandam, juntos e abraçados, para uma fogueira como em Fahrenheit 451?

Do lado de cá, meu velho, basta um pouco de ignorância e hipocrisia para retomarmos à inquisição. À ditatura. À censura.

Desde o início das nossas cartas, defendo a importância da leitura e dos livros. Mas como toda declaração apaixonada, romantizar e idealizar leva a acreditar em milagres. Vocês ajudam a abrir caminhos, incorporando no leitor, possibilidades que ele nem imaginava existir. Mas achar que toda leitura é garantia de salvação, seria o mesmo que acreditar que todo trabalho em um terreiro abre as portas da felicidade.

Tirando meus pais, meu irmão e minha paixão até morrer pelo meu time de futebol (muitas vezes insana, concordo), não lembro de nada que tenha permanecido tanto na minha vida e por tanto tempo, desde que abri o primeiro livro e li a primeira página.

Neste mês específico, o livro tem duas datas para comemorar. O atraso das cartas acabou deixando uma passar em branco: 12 de outubro, o Dia da Leitura, que não por coincidência, é o da criança. Não é preciso imaginar qual seria o presente ideal. Nem que muitas nunca tiveram um.

Até banco anda falando (e bem) de vocês com a galerinha. E olha que o sentimento não é recíproco para com a instituição. Como disse Bertolt Brecht, “Melhor que roubar um banco, é fundar um”. Mas vá lá. Já que existem, que paguem a sua conta com alguma mensagem boa. Esse banco, grande o suficiente para ser ouvido, diz que “ler para uma criança, muda o mundo”.

Ler e fazer ler, pode mesmo mudar a vida de uma criança. E quem sabe ela, realmente, venha a transformar o mundo que nós fazemos tanta questão de piorar.

Mas voltando ao assunto deste mês, quase aos 45 minutos do segundo tempo, comemora-se o Dia Nacional do Livro. Domingo, 29, para ser mais preciso. Como acredito que vocês me ajudaram a ser um pouco melhor, desejo tudo de bom, com muitos novos leitores sempre. Afinal, comecei a escrever cartas para agradecer por isso. Achando até que, se vazassem na internet, incentivariam não só prazer da leitura, como algo que anda em falta: diálogo.

Se todo mundo escrevesse uma carta de vez em quando para si mesmo, se surpreenderia com o que vê (e lê). Quando faço isso, parece que estou falando comigo também.

Gostaria muito que nossas cartas fizessem as pessoas sentirem a diferença que um livro pode fazer. Trocassem os comprimidos na cabeceira por um de vocês.

Lembrando claro que nada é perfeito. Afinal, com um Trump, um Kim Jong-un ou os nossos políticos, vale também questionar: que diabo de livro esses meninos andaram lendo na vida?

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

P.S: Que livro nacional recomendaria no seu dia, meu velho? Eu nem saberia por qual começar. Há muito para ler de antes e existe muito para ler agora. O melhor mesmo é seguir o desejo ou a curiosidade e ir frente. Bom domingo de leitura.

Rio, 27 de setembro de 2017

livros-armas-de-instruc3a7c3a3o-massiva

E aí, meu velho?

Minha carta semanal falhou por três vezes. Peço desculpas pela ausência, mas as coisas do lado de cá andam bastante agitadas.

Depois de um feriado de 7 de setembro, com cada vez menos independência, embarcamos em duas semanas de um festival de rock feito de muitos tons de música, inclusive do tom desafinado de alguns cantores. Mas como num livro de contos, não se pode esperar que todos sejam inesquecíveis. Valeu o rock, o samba, o pop, o forró e todo o mais musical que o festival Rock in Rio reuniu.

O “roll” do rock pegou pesado mesmo a partir da semana passada, sem previsão de final. Um conflito armado entre traficantes. Polícia e exército em volta. E no meio, vidas em risco e soluções cada vez mais distantes. Uma longa história do Rio de Janeiro, que prefiro deixar para outra carta.

Carta após carta, tento fugir de qualquer comentário que lembre que a vida de livro é bem mais fácil do que a dos seus autores. Mas anda difícil, bastante difícil. Sem contar os dois topetudos que resolveram reeditar a história pós-Hiroshima, como se as nossas mazelas diárias já não fossem bombásticas o suficiente.

Saímos de uma Bienal de 680 mil pessoas para um festival de música (e outras definições) de quase 1 milhão de público. Mesmo assim, o que mais repercutiu no mundo foram os tiros de duas dúzias de bandidos.

Não sei pelo que você passou até chegar à estante onde habitas. Pode ter enfrentado o pouco espaço, quando encaixotado para o seu destino, tal qual os clandestinos em caminhões entre o México e os EUA. Livros também passam seus apertos, claro.

Mas na sua vida livreira, vale perguntar: depois de sair daquela caixa apertada com seus pares, você chegou até as mãos do leitor através de uma livraria ou da Bienal do Rio?

Porque custa (e custa muito) acreditar que você se tornou acessível ao seu amigo leitor por um preço promocional na Bienal. Sempre me pareceu que essa grande feira tinha a função de incentivar a formação de novos leitores.

E como se faz isso? Reunindo milhares de leitores em uma grande feira literária com autores, editoras e livrarias. Bonito, não? Empolgante, não é verdade?

Mas com os valores de livros sendo vendidos ao mesmo preço que no dia a dia da nossa vida literária de livrarias, como é possível?

Claro que o show literário custa. Mas se eles reúnem em seis dias 680 mil pessoas ávidas por outros como você, meu velho, não dá para fazer 50% de desconto valerem mesmo 50%?

Em todas as Bienais que estive, só me aproveitei de uma boa promoção uma vez. Saí abarrotado. Claro, meu velho, ninguém quer sair da Bienal com um livro apenas. É quase uma derrota.

Loucos por livros querem cometer loucuras numa Bienal. Mas toda loucura tem seu preço. E está difícil enlouquecer literariamente. Literalmente, temos motivos de sobra.

A Bienal é o parque de diversões dos amantes, apaixonados, loucos, desvairados, inconsequentes, despudorados e incontroláveis por livros. Mas temos que nos conformar com o que temos, não com o que podemos.

A Bienal é um exercício de paciência. De paciência pela distância. Pelas filas. Pela gritaria das fãs dos escritores de games, youtubers etc.

A Bienal é um exercício de matemática. Some 25 reais para entrar e parar o carro. Mais 24 reais (a falsa meia) para entrar e andar por quilômetros de livros. Some o refrigerante e o cachorro-quente, a fatia da pizza, ou a esfirra de carne. Um docinho no final ou um café depois para dar aquela despertada, entre as dores nas juntas e na lombar. Multiplique isso por uma família.

Some tudo isso e aí a pergunta: se a gente não quer só comida e diversão, sobrou quanto para a arte? Pouco. Ou melhor; sobrou, mas não deu. Porque parar o carro e entrar na Bienal já custou um livro. Sem desconto.

Não é uma questão apenas de elitizar o discurso porque falamos de carro. Porque carro todos dão um jeitinho de ter. Livro precisa de um empurrãozinho; nem sempre pega de primeira. E ainda faltou ônibus da Prefeitura para levar os alunos da rede municipal. Lá se foi mais uma grande oportunidade para estimular a leitura.

Claro que valem os ambientes literários, as apresentações, o papo com os autores. Mas convenhamos; com quase 100 mil pessoas por dia, não dá para imaginar que todo mundo conseguiu participar da festa. Os que minimamente podem comprar, vão à internet, não à Bienal.

Uma pena porque como disse o Veríssimo, quem gosta de livro tem dois prazeres: um quando compra e outro quando lê. Eu completaria dizendo “e quando leva vários debaixo do braço”. Cheiro de livro novo é que dá barato. Esse sim deveria ser o vício das crianças e dos jovens.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

PS: Uma carta com três semanas de atraso acaba falando de um pouco, tudo. Se fosse me inspirar na música, recomendaria “Gravando”, de Phil Ramone, o cara que produziu músicos famosos, sendo alguns verdadeiras lendas. Já para entender a leviandade atômica, vale ler sobre seus efeitos em “Hiroshima”, de John Hersey, da Companhia das Letras, um new jornalismo de primeira. Sobre o mercado de livros, aquela olhadinha em “O negócio dos livros”, de André Schiffrin, da Casa da Palavra, mostra que nem toda decisão do leitor é verdadeiramente dele. E sobre balas, prefiro lembrar apenas daquelas que as crianças correm atrás hoje, por São Cosme e Damião, meu velho. E não as que fazem o contrário.