Rio, 1 de setembro de 2017

como_organizar_estante_livros

E aí, meu velho?

Semana passada o correio falhou. Não está sendo fácil manter periodicidade na vida. O único fato permanente do lado de cá é que, seja onde for, pela escrita ou fala, estão sempre revelando a corrupção de todo dia. Ou toda hora. Ou de todos os anos. Longos anos “sem perceber que era subtraída”. Médio. Perceber, se percebia, mas não era o caso de falar sobre isso. E hoje, já mais que percebida, não muda nada.

Numa analogia injusta com vocês, seria como se numa única estante, todas as prateleiras fossem feitas da mesma história, com nomes de personagens e capas diferentes, mas semelhantes no enredo e…final? Talvez.

Óbvio que se fossem livros de amor, de aventura ou infantis, mesmo que repetidos tantas vezes, valeria a pena.

Mas não, infelizmente não. Estamos mais para a desumanização, para aquela história que lemos com interesse e, ao fecharmos o livro no final, ficamos marcados pelo fim pouco altruísta dos personagens. A diferença é que nos livros, histórias que revelam o quanto somos desumanos, mesquinhos ou egoístas, rendem grande literatura.

A tragédia do amor é que torna o amor inesquecível. O ciúme é que faz a vítima literária. A corrupção na cidadezinha do interior é que torna a redenção do herói solitário e alcoólatra, inesquecível. Somos clichês e produtores do lado negro da literatura que, quando de qualidade, nos diz que viemos com falhas imensas.

Se fosse só para alimentar a literatura, o cinema, as séries de TV, nossas falhas teriam realmente um valor artístico inquestionável. Mas não conseguimos manter isso no plano da ficção escrita. Muito menos com a qualidade dos grandes escritores dedicados aos temas.

Nesse raciocínio do que vivemos hoje, a estante que tu habitas, seria feita de fileiras dos mesmos livros policiais, mostrando as entranhas sujas do poder das instituições e do crime mafioso, mas sem a qualidade de um Dennis Lehane. Ou a mesquinhez humana e as contradições morais de todos nós, mas sem a estocada precisa de um Dostoiévski. Teria edições repetidas do jogo político internacional e das ameaças terroristas, mas sem a fina abordagem de um Graham Greene ou John Le Carré. Revelaria em série, a corrosão do ciúme e a violência passional e homofóbica diária, mas sem a originalidade de um Machado ou a crueza de um Rubem Fonseca.

Seria assim, meu velho amigo: uma sequência interminável de histórias repetidas de vítimas e carrascos, extremismos e intolerância, intrigas e corrupções, como essas que nos chegam todos os dias. Coisas rodriguianas ou shakespearianas, mas sem a arte e a inteligência de nenhum deles.

Dessas histórias que correm atrás da gente, nos colocando no centro da trama como personagens ou meros leitores, sempre temos aquelas que nos salvam. São os professores que ainda dão aulas em áreas de risco ou gente que por amor aos livros, carrega vocês, de um lado para o outro, oferecendo leitura gratuita em suas bibliotecas de rodas.

Ouvi no rádio recentemente, uma pesquisa feita por um americano (sempre eles) sobre, pasme, as consequências da violência para a educação no Rio de Janeiro.

Professores melhores colocados nos concursos públicos têm direito a escolher as escolas onde desejam lecionar. E como ninguém estudou para virar alvo de bala de polícia e bandido, os melhores professores vão para longe dos lugares onde estão as crianças que mais precisam de qualidade e estimulo para estudar.

Resumindo, meu velho, segure o seu lugar aí na estante. Agarre-se aos seus bons companheiros de papel. Porque uma bala perdida aqui é mortal para o futuro, seja quando tira vidas ou professores de seus alunos.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

P.S: Se queremos superficialidade, vamos aos telejornais ou as apressadas notícias da internet. Mas para entender melhor porque somos o que somos, serão ainda vocês, meu velho, que irão nos ajudar. No meio desse tiroteio de informações, vale sempre ler caras como Noam Chomsky para entrar no pensamento americano capaz de criar um Trump. Ou o badaladíssimo Yuval Noah Harari com o seu “Sapiens” de forma clara e simples, nos conta como chegamos até aqui. Mas não dá para deixar de lado os quatro livros de “A Era …”, de Eric Hobsbawn, um panorama histórico dos acontecimentos que escreveram o Século XX e, consequentemente, a nossa vida. Mas na falta de tempo, um gibi do Tio Patinhas também ajuda a entender nossa mesquinhez, meu velho.

Santiago – Barcelona, 18 de agosto de 2017

IMG_4568

Mujer, pajáro I, 1973. Fundação Miró, Barcelona.

 

E aí, meu velho?

Tenho sempre uma expectativa de que a próxima carta será mais leve que a anterior. Mas mesmo quando falamos de livros, estamos sempre reféns de momentos complicados, que insistem em pautar as nossas vidas.

A verdade é que um livro é capaz de transformar uma vida, mas não transforma a humanidade. Vocês fazem pessoas melhores? Acredito que sim. Mas há limites até para vocês. Porque uma mesma história pode ser lida da forma que o leitor quiser entender. E esse “entender” gera as justificativas mais absurdas para reinterpretações equivocadas. Cada vez mais, escreve-se menos por linhas tortas, mas se lê bastante entortando as linhas.

Quando me sentei aqui à mesa para escrever essa carta, já me incomodavam as últimas conversas que vinha tendo. Sempre acho que, daí da sua estante, você observa pela janela da TV o que andamos fazendo do lado de cá. Dependendo do gosto do seu leitor, você deve se assustar do quanto somos capazes de escrever histórias tristes, ou pelo menos, o quanto escolhemos contar as mais tristes. Fazendo um paralelo com você, que é um livro, seria como reeditá-lo várias vezes, mudando a capa, a gramatura do papel, até mesmo a tipologia, acrescentando talvez uma revisão do autor, mas contando sempre as mesmas histórias.

Pois é, meu velho. O lado de cá parece gostar de repeti-las, optando pelas piores.

Quanto mais falamos de preconceitos, mais eles insistem em ganhar novas edições. Seja no antissemitismo e no racismo dos supremacistas brancos em Charlottesville, protegidos pela primeira emenda que garante a democracia para o ato mais antidemocrático; se armar e atacar quem não concorda com eles.

Mas como disse, nem bem a gente respira fundo de uma história e lá vamos nós escrever uma pior. Antes mesmo de terminar essa carta, já preciso reescrevê-la com o ataque terrorista em Barcelona sofrido ontem. As imagens, nesse caso, valem mais que mil palavras, porque as palavras são sempre as mesmas de uma história sempre igual: reivindicação do Estado Islâmico, números de mortos que crescem, feridos que lutam para sobreviver, alerta vermelho, ataques em outra cidade espanhola.

Mudam os personagens, novos infelizes que se encontravam ali naquela hora, vestindo bermudas pelo calor do verão europeu, lendo um livro em um banco em LaRampla, despojados de qualquer proteção, além da ilusão de que essas coisas só acontecem com os outros. Analisaremos, falaremos, registraremos e escreveremos. Como fazem os jornais todos os dias, sem muita profundidade, mas com a contundência do fato de que mais uma criança negra ou branca morreu por uma bala em sua escola ou na barriga da mãe.

De novo, desculpe meu velho, por essa carta. Quando a iniciei ontem, tinha a intenção de ser menos triste. Mas os pensamentos obscuros nos levam a pensar de que sempre estamos à beira de repetir uma “solução final” ou um “Fahrenheit 451”. Não que hoje esses pensamentos fluam sem serem denunciados ou reprimidos, mas ainda existem e encontram eco. Dos mais fáceis e dolorosos gritos racistas até o som dos gritos de quem é atingido pelo radicalismo religioso. Como um sino: quem bate sempre, ressoa sempre.

Anos atrás, ao visitar Santiago do Chile, fui às casas do poeta Pablo Neruda. Numa delas, um jovem e simpático guia nos conduziu contando que Neruda tinha paixão pelo mar e que, na arquitetura de suas três casas, sempre se encontravam menções ao tema. Uma sala em forma de proa ou janelas que lembravam escotilhas. Mas como o tempo é seletivo na memória (ainda não estou na fase de ler o mesmo livro duas vezes), não lembro de todos os detalhes sobre Neruda e suas moradas.

Lembro sim que o guia contou sobre o medo de navegar de Neruda, tornando a sua relação com o mar um ato de amor e temor. Somos assim como espécie, meu velho. Amamos e tememos o ser humano. É sempre uma aventura entrar nesse mar de incógnitas que existe em nós.

Mas voltando à conversa, uma das revelações do jovem guia foi pessoal. Não tinha nada a ver com os objetos das coleções particulares de Neruda ou o quadro que retratava a amante e grande amor de sua vida, Mathilde, a última companheira até  sua morte.

Ele revelou que Neruda era vizinho de seus avós, não sei se em La Chascona, La Sebastiana ou La Isla Negra, nomes de suas casas. E que seus avós não tinham uma boa relação com o poeta, pois ele era comunista. Tirando o fato de que o Chile viveu uma das mais violentas e longas ditaduras militares da América do Sul, para os avós dele, a obra e importância de Neruda eram irrelevantes diante da sua escolha política. Para o jovem não: tinha orgulho de Neruda ser chileno e de falar sobre ele, sem comprometer o amor pelos seus avós. Olhava para o contexto histórico daquele momento quando o Chile era presidido pelo anticomunista González Videla antes de Allende ganhar e ser derrubado por Pinochet. Conseguimos ser tão sábios quanto o nosso jovem guia?

Hoje, mais do que nunca, encontramos opiniões arbitrárias que condenam a obra artística pelo pensamento político do seu criador. Não se pede a concordância com o pensamento do outro, mas o respeito, desde que não fira os princípios básicos dos direitos humanos. Mas quando vemos a ignorância comandar opiniões radicais, confundindo as definições históricas do que é o quê, acabamos encontrando as mesmas razões tortas para justificar radicalismos, senão com bombas, com palavras que ferem e motivam outros a ferir.

Existe uma esperança, meu velho? Como escreveu o escritor e professor Charles Kiefer, é um erro imaginar que “a vida imita a arte”. Para ele, “a arte inventa a vida”.

Talvez seja nela e na sua produção que devemos colocar um pouco das nossas esperanças. Como esse menino da foto que, diante do mestre Miró, reinventa a arte no seu traço inocente, mas não menos verdadeiro.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

PS: Já que falei tanto de Neruda, seus livros de poesia sempre merecem um lugar na estante. Confesso que me apaixonei por “Confesso que vivi”, que para quem gosta ou não de biografias, pode bem ser lido como um romance. Só pelo titulo, você já quer viver a história. Mas há também uma bela homenagem à amizade feita por Vinicius de Moraes ao poeta chileno: “História Natural de Pablo Neruda. A elegia que vem de longe”, da Companhia das Letras, com lindas xilogravuras de Calazans Neto. Diante de tragédias como a de Barcelona, vale não desistir nunca, pois como disse o poeta ganhador do Nobel: “Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo”. Precisamos achar graça em nós, meu velho.

 

 

 

 

 

Rio, 10 de agosto de 2017

open old book on white background; Shutterstock ID 118914283

E aí, meu velho?

Quero dividir uma história que vem sendo escrita há 60 anos. É uma Sagrada Família de Gaudí em forma de romance. Levou esse tempo todo para ser escrita sem previsão de término, o que deixaria qualquer editor nervoso, tal como esperar o nascimento de um filho. E isso aconteceu duplamente nesse romance.

É um romance porque é feito dos ingredientes tradicionais. Começa com a troca de olhares. Se querem, mas não se falam. Desejam, mas não vão em frente. Chegam as férias do curso à noite onde estudam. E aí, como frio sem casaco, fome sem comida e festa sem bebida, a falta é sentida.

Ela, voluntariosa filha mais nova de 6 irmãos, rompe preconceitos familiares e vai atrás do seu amor. E vai de bicicleta, nas ruas do subúrbio carioca, respirando os ares do pós-guerra.

Ele, que ainda jovem, tocava bongo em bailes dançantes e em programas de rádio, vivendo sua grande paixão pelos livros, surpreende-se com ela a sua porta, resolvida a virar personagem da sua história. Sem descer da bicicleta, manda na lata: “Vai me namorar ou não?”.

E aí meu velho, como não ensinam os grandes romances, o amor pode ser inesquecível sem ser trágico. Começa a caminhada dos dois. Não de bicicleta, pois ele não sabia andar de magrela.

Mesmo sem grandes dramas, há ingredientes épicos e rocambolescos nesse romance, para ficarmos com termos da época. Como ela era a caçula, enfrentou o patriarca quando decidiu trabalhar fora aos 15 anos. E bateu pé de novo para noivar antes da irmã. E conseguiu: fez a fila andar e levou ambas para o altar no mesmo dia.

Mas ele também não deixou por menos. Enfrentou, heroicamente, o desafio de encontrar a noiva. Algo semelhante aos romances de espionagem, atravessando barreiras como um noivo que veio do frio. Na calada da noite, o jovem apaixonado, sai escondido em um caminhão do exército em pleno aquartelamento militar. Acobertado pelos colegas de farda, vai até a casa da noiva para reafirmar seu amor: “Estou longe, mas de prontidão”. Tempos depois, subia naquele altar citado anteriormente.

Se ainda precisássemos de mais acontecimentos para rechear o romance, não faltariam os momentos ternos ou bem-humorados.

Ela era linda e ele, um sortudo. Dispensava os candidatos de forma elegante, sem recusar os bombons ganhos dos pretendentes apaixonados. Já ele, que ouvia em confidência as pretensões amorosas dos patetas para com a morena bonita da sala de aula, incentivava-os a seguirem em frente. Coisa de folhetim mesmo. E de uma cara de pau convencido.

Mas isso foi antes da bicicleta do amor, do grupo musical ou da fuga do quartel. E muito antes, bem antes, quando eles nem sonhavam em viver seus 60 tons de samba ou de rumba, iam fazendo sua história pessoal.

Ela pensava na independência. No direito de se divertir e viver sua vida. De ser, das quatro irmãs, a única que trabalhou fora.  Seus dois irmãos, em nada semelhantes aos de Milton Hatoum, tiveram histórias bem diferentes: o mais velho de todos os seis, foi um ex-pracinha que voltou ferido da 2º guerra (essa passagem já daria um livro). O outro, brigão e moleque, poderia inspirar um Mark Twain ou Monteiro Lobato.

Já ele, como filho único, dormiu por um tempo, num depósito de livros improvisado como quarto. Isso fez com que lesse muitos iguais a você, meu velho, à luz de velas e de sonhos. Desenhava (e bem) desde garoto, copiando quadros clássicos, sendo uma hora Da Vinci, outra Michelangelo, no sombreado do lápis e do carvão. E na dureza e na falteza, pintava paisagens à óleo nas tampas de caixas de charuto que recolhia na rua.

O romance passou por uma guerra, um presidente suicida e outro fujão, um golpe militar, alguns milhares de planos econômicos, governos desgovernados, um outro golpe, noites sem dormir, muitos almoços em família e sempre, os livros. Muitos livros, que mudaram algumas vezes de casas, de estantes e de dono.

Parte do resultado desse romance, está aqui, escrevendo para você, meu velho. O outro, professor, anda nas salas de aula, fazendo mais pelos jovens brasileiros e ganhando bem menos do que aqueles que elegemos dizendo que iriam fazer.

Esse romance, me deu o amor pelos livros e os animais. Deu, ao meu irmão e a mim, uma filha e uma sobrinha linda, necessariamente nessa ordem. Uma história que não é mais só deles, mas que foi escrita por eles; pela morena Ivany e o sortudo Herman. Pais e avós que, hoje, fazem 60 anos de um amor casado e 2 anos de amor noivado.

E fica a pergunta que sempre achamos fácil de responder. E aí, meus velhos, tudo isso que descrevi e o que faltou ser escrito, daria um livro? Porque numa grande história de amor já deu.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

PS: Um livro de amor seria o mais indicado hoje. Talvez tenha um ou outro que se perdeu na minha memória. Lembro recentemente, da bela reedição de “O amor nos tempos do `cólera”, de Gabriel Garcia Marquez pela Record. Mas a verdade é que o tema já fez parte de várias histórias que li. A maioria, certamente, sem um final feliz. Escritores não gostam de finais felizes. Ou que achamos felizes. Escritores gostam de ser infelizes nos livros.

Rio, 4 de agosto de 2017

vazamento-de-cano

E aí, meu velho?

Voltei da Flip segunda passada. Depois de cinco dias rodeado de livros como você, palestras e cachaça, necessariamente nessa ordem, pois a marvada só acontecia à noite, cheguei na minha casa e pus o pé na realidade. A dura realidade de um insistente vazamento de água no meu apartamento que acreditei estar extinto na minha volta.

Não estava. Troquei a pinga da euforia pelo pinga-pinga que remove o humor de uma pessoa sóbria. Acho que preciso me dedicar à primeira para transpor este Rubicão.

Assim como um Wally, a fonte dessa desgraça se move a cada parede quebrada, sem ser encontrada. Amanheço com a notícia que a fonte foi descoberta e encerro o dia com a vizinha debaixo dizendo que “pinga ni mim”.

Mas há de se aprender sempre com tudo que se vive. Até com vazamentos. E lembrando das discussões da Flip nas mesas e fora delas; na imensa e diversificada pilha de livros que construí pós-evento (com a predominante presença de escritoras e escritores da África, Brasil e EUA); tentando diminuir minha dívida com Lima Barreto; angustiado pelo tempo que terei que inventar para ler estes e outros que já me esperam; arrisco dizer que a invisibilidade do preconceito e do racismo se espalha como uma infiltração.

Mais que as visíveis escancaradas demonstrações vazadas diariamente nas redes sociais, existe o preconceito que nasce e permanece sorrateiro como água que vaza no ambiente branco.

Dissimuladamente, aos poucos, de forma não clara e parecendo natural, ele se infiltra no nosso falar, no jeito de agir, nos costumes do lidar. Se perguntados, negamos o racismo em nós. Lembramos que tivemos ou temos amigos negros. Jogamos bola e comemoramos abraçados nossos gols no campinho ou na quadra da escola. Sorrimos e cantamos juntos na roda de samba negra e, claro, branca também, pois queremos pertencer a ela. Afinal, não só o inferno, o racismo é sempre dos outros. Porque imaginamos que ele só existe naqueles que vestem a carapuça da Ku-Klux-Kan. Na verdade, ele pode ser um filete dentro da nossa formação e do nosso agir, provocando imensos estragos, pois não é claramente percebido por nós.

E a água ainda se espalha no andar debaixo da discriminação. A repercussão da Flip foi além do ambiente da literatura e, certamente, foi a que melhor confrontou a questão: o discurso e a prática andam juntas? O quanto sinceramente, aqueles que aplaudiam positivamente a curadoria por uma presença negra, feminina e plural, não comentavam na roda miúda, que a Flip não poderia virar a manifestação de um grupo ou outro. Qual seria a próxima? Indígena, judia ou do gueto?

Assim como a água que vaza, a responsabilidade pode vir de mais de um furo. Sem clareza, temos dificuldade de admitir: ainda nos movemos sobre nossos preconceitos, sem saber como lidar com eles. Não temos coragem de descobrir de onde nasce a nossa fonte. Colocamos desculpas onde deveríamos admitir nosso conservadorismo. Conceitos enraizados e enfiados em nós, por outros que também, como nós, foram levados a acreditar que essa divisão de raça é natural, necessária e justificável.

Nossa inabilidade e o nosso incomodo com o assunto só irá melhorar quanto mais dele falarmos. Uma reflexão solitária é como registro fechado: não vai além de si mesmo.

A Flip precisava ser totalmente negra e mulher para que um dia, não tenhamos que escolher a literatura de um grupo ou outro da sociedade.

Na estante da minha casa, na infância, existia um livro do escritor americano James Baldwin. Quando o li, mesmo muito novo para entender certas coisas, adorei. Não sabia se ele era negro. Soube sim, que era um grande escritor. Hoje, conhecendo a sua trajetória, minha admiração só se soma ao do escritor sem cor que conheci. E assim deveria ser a forma de nos relacionarmos; como uma capa de livro que só leva um título. Vale o que temos a dizer. Ele não era o negro mais branco do país, como um dia também supôs Caetano, ao descobrir que Vinicius de Moraes era branco. Afinal, somente um negro poderia escrever “Orfeu da Conceição”, imaginava o baiano mais branco da Bahia.

Na carta passada falei de títulos que motivam a compra de livros. Um cabe muito bem nesse momento: “Se não agora, quando?”. Se não fosse agora nessa Flip de 15 anos, seria quando? E por que não ser?

Não se trata apenas dos temas – racismo, preconceito, feminicídio, dívida social, escravidão – que surgiram pela escolha da curadoria literária, tornando-se pauta das mesas (com ou sem cachaça). Ou pelos momentos emocionantes e mais que repercutidos da divina Diva; da maravilhosa Conceição Evaristo; da martelada poética de Adelaide Ivánova.

O que aconteceu também foi literatura, meu velho. Foi a descoberta de autores e autoras descendentes de um continente imenso e rico culturalmente; o da África e do Brasil continental.

Se não agora, quando? Se ainda é preciso a militância literária pela raça ou cor, para conhecermos vidas que só eram contadas pela literatura branca, que seja. Se for preciso repetir a dose, de cachaça e de escolhas mais plurais, que seja também. E se for necessário quebrar toda a casa para estancar o vazamento, que se quebre e se crie tudo de novo.

Ou então, os incomodados que se mudem, meu velho.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

PS: Como na carta anterior, falei de vários livros dos escritores que estariam na Flip, e como literatura deve ser de todas as cores, vou só complementar nesta carta, o ótimo livro de crônicas de André (Dedé) Laurentino, “Não me deixe aqui rindo sozinho”, da Realejo Livros. Tive o divertido prazer de conhecer este pernambucano londrino, ou “pernambritânico”, como ele diz. E continuo me divertindo com o humor sagaz de suas crônicas. Depois de livrarem a cara do Temer esta semana, só buscando o riso sozinho mesmo. Afinal, se não agora, quando, meu velho?

Paraty, 25 de julho de 2017

centro-hist-a-rico

E aí, meu velho?

Há uma mágica que acontece antes de se conhecer uma história. E que certamente é um desafio para todo escritor. Saber como dizer em poucas palavras, pouquíssimas mesmo, até as vezes em uma só, o que nos espera após a primeira página de um livro, meu amigo. Inclusive, parabéns pela semana passada, pois você está na categoria “amigo”: sempre disponível.

Mas voltando à mágica que mencionei, não há dúvida de que, tal qual um filho que nominamos depois de vários embates e negociações familiares, o título de um livro é uma das maiores responsabilidades e mais difíceis decisões de um escritor. Afinal, será pelo nome dado que iremos falar “Você tem o…?” para o livreiro ou “Foi pra você que emprestei o…?” para o amigo ou parente esquecido.

Títulos são como palavras ditas em segredo: provocam uma reação muito pessoal. E pelo dia que se comemora hoje, lembro de um que é inspirador (já o citei anteriormente): “A Jornada do Escritor”, de Christopher Vogler. Na jornada do escritor, inspirada na do arquétipo do Herói, o livro fala da construção de personagens baseado em grandes filmes. Inspirado pelo apelo de uma “jornada”, não resisti e trouxe-o para a minha estante anos atrás. Não me arrependi nem um pouco do risco que corri sem saber o conteúdo pela orelha, mas confesso; nomes de livros podem ser perigosamente sedutores.

Alguns escritores dizem que raramente mudam o nome do título inicial. Outros não sustentam a primeira ideia de título e vão e voltam até mesmo depois do ponto final.

São escolhas difíceis: títulos podem ser tão mágicos quanto o próprio conteúdo que anunciam. Às vezes, ficamos apenas nele e dele falamos em alto e bom som. Como se pudéssemos garantir a qualidade do conteúdo só porque achamos o título um senhor título.

Mais ainda assim, meu velho, gostaria de agradecer há alguns deles e sinta-se incluído. Obrigado “Enterrem meu coração na curva do rio”. Obrigado “Viagem ao Centro da Terra”. Obrigado “Crime e Castigo”. Obrigado “Meu nome não é Johnny”. Obrigado “Sobre Meninos e Lobos”. Obrigado “Cem anos de solidão” e “Crônica de uma morte anunciada”. Obrigado “O Minotauro”. Obrigado “O complexo de Portnoy” e “O animal agonizante”. Obrigado “Bartleby, o Escrivão”. Obrigado “Carnaval no Fogo”. Obrigado “Cartas a um jovem poeta”. Obrigado “Don Casmurro”. Obrigado “Conversa no Catedral” e “Tia Julia e o Escrevinhador”. Obrigado “Don Quixote”. Obrigado “Um estudo em vermelho”. Obrigado “O auto da compadecida”. Obrigado “Fama e Anonimato”. Obrigado “O apanhador no campo de Centeio”. Obrigado “Pergunte ao Pó”. Obrigado “Memorial do Convento”, “Levantado do Chão”, “O conto da ilha desconhecida” e “O Evangelho segundo Jesus Cristo”. Obrigado “O ano do pensamento mágico”. Obrigado “O homem que amava os cachorros”. Obrigado “O coração das trevas”. Obrigado “O som e a fúria”. Obrigado “O terceiro homem”. Obrigado “O Xale”. Obrigado “Os detetives selvagens”. Obrigado “Os últimos soldados da Guerra Fria”. Obrigado “Vidas Secas”. Obrigado “O falcão Maltês”. Obrigado “Todos os homens do Rei”. Obrigado “Tu carregas meu nome”. Obrigado “A última casa de ópio”. Obrigado “Vinhas da Ira”. Obrigado “Viagem em volta do meu quarto”. Obrigado “A vida como ela é…”. Obrigado “Se não agora, quando?. Obrigado “O clube do bangue-bangue”. Obrigado “Adeus às armas”. Obrigado “Confesso que vivi”. Obrigado “Atire no pianista”. Obrigado “Dois irmãos”. Obrigado “Os assassinos da Rua Morgue”. Obrigado “Da dificuldade de ser cão”. Obrigado “Eichmann em Jerusalém”. Obrigado “Fazendo filmes”. Obrigado “A guerra não tem rosto de mulher”. Obrigado “A luta”. Obrigado “A sangue frio”. Obrigado “A praia” e “A balada de Adam Henry” . Obrigado “A noite dos desesperados”. Obrigado “O perdido”. Obrigado “John Speedboat”.

Obrigado, obrigado, obrigado. Pelos que faltaram, pelos que ainda virão, pelos que irão iniciar sua jornada. Hoje é um bom dia para agradecer por todos os bons títulos começando a ler um novo. Os escritores de tantos títulos também agradecem.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve. E mais uma vez, obrigado, meu velho.

L.

PS: Amanhã inicio a minha jornada do leitor rumo à FLIP em Paraty. Vou com grandes expectativas. Muitas escritoras africanas estarão lá, o que coincide com dia de hoje: ser ao mesmo tempo das escritoras e Internacional das Mulheres Negras da America Latina e Caribe. Já reservei um espaço na mala do carro, pois não voltarei impune aos livros e suas autoras e autores. Claro que poderia ter comprado antes de ir, mas seria o mesmo que comer o algodão doce em casa antes de ir ao parque de diversões. E obrigado Lima Barreto, justa homenagem da FLIP, por todos os títulos que você nos deu.

 

Gambia & Lapa, 12 de julho de 2017

HerbLubalinEros

“Black & White in color”, Herb Lubalin. Rev.Eros, 1962

 

E aí, meu velho?

Será que na estante onde você vive, existe um exemplar de “Raízes”? Como é um livro de 1976, não deve ser fácil ter um ao lado.

Eu era adolescente quando li este livro do escritor americano Alex Haley. Ele conta a trajetória de sua família nascida na África e escravizada em solo estadunidense, como milhares de outros africanos sequestrados pelos brancos. Esta leitura provocou em mim sentimentos que, felizmente ou infelizmente, se mantêm até hoje.

Felizmente, porque a indignação que tive ao ler o livro 41 anos atrás permanece. Infelizmente, porque 41 anos depois, vejo a escravidão permanecer ativa e disfarçada de outros grilhões.

Diante da imensa pesquisa feita para resgatar a trajetória de sua família da África até a América, o livro levou 20 anos para ser escrito, segundo li em sites. Na época, foi um soco no estômago. No meu e de tantos outros que, certamente, só conheciam a abordagem do assunto pelos livros escolares, aqui ou nos Estados Unidos. Sem a dimensão visceral da tragédia da escravidão, olhávamos como uma “parte natural da história” dos homens. Dos brancos como nós. Sabe-se hoje que negros africanos escravizavam negros de outras tribos; o domínio do mais forte sobre o mais fraco. Não é um privilégio de brancos sobre negros. Mas a escravidão ocidental foi, certamente, a mais conhecida e de maior influência sobre uma raça, pois tem reflexos até hoje.

Duas lembranças me impactaram profundamente sobre “Raízes”. Uma no livro e, outra, numa entrevista do autor em um jornal (sim, já adolescente eu lia jornal).

A do livro é a passagem em que Kunta Kinte, o trisavô do autor, é capturado por traficantes de escravos ao sair para caminhar fora dos limites da sua aldeia. Deitado em um sofá na nossa casa no subúrbio do Rio, o adolescente aqui imaginou-se arrancado de sua vida como foi Kunta Kinte. Desaparecendo naquela tarde, indo para longe de meus pais, meu irmão, meu cachorro. A empatia com o jovem africano veio da agonia de experimentar a mesma sensação de ver meus pais chegando em casa sem saber que nunca mais me veriam, e nem eu a eles.

Foi a realidade mais próxima que pude criar daquela passagem: minha vida ter um dono que não era eu. E veja, meu velho, sem a trajetória de violência, humilhação e mutilação impostas as gerações dessa família afro-americana. Era um menino branco se imaginando sem suas raízes e a rede de proteção que vivia. Naquela época, o mais próximo disso, seriam as ações violentas da ditadura militar, invadindo casas e desaparecendo com vidas. E há quem defenda a volta disso. Até baterem à sua porta.

A outra situação foi a da entrevista com o autor. A série original de 1976 para a TV estreara nos EUA.  Ao pegar um táxi dias depois, Alex revelou que foi reconhecido pelo motorista. Este confessou que, após ver a série, ficou envergonhado diante do que fizeram com milhões de africanos escravizados. Ele pediu desculpas ao autor por tudo que os americanos brancos fizeram à sua e às outras famílias africanas.

“Raízes” foi um livro contundente. Era a voz de uma etnia transformada em best-seller pelo mercado branco americano. A série conquistou diversos prêmios e seu capítulo final é, até hoje, uma das maiores audiências da TV dos EUA.

Vale lembrar, também, a provocação do subtítulo: “A saga de uma família americana”. Naquela época, não se falava em afrodescendente ou afro-americano. Sua família foi feita americana pela força. Então, por direito, ela era negra e americana tanto quanto uma branca e americana. Aceite, Trump.

Lembrei desse livro de 40 anos atrás, meu velho, por causa de dois acontecimentos semana passada.

Um deles, foi a notícia de que imigrantes africanos estão sendo escravizados por mercenários e vendidos na Líbia, como nos tempos do tráfico para as Américas.

A outra situação foi uma gravação feita do celular do jovem músico carioca, Nego Álvaro, postada no Facebook. Depois de se apresentar num bar da Lapa carioca, ele foi abordado e conduzido para a delegacia como “suspeito”, sem que o policial explicasse de que flagrante ele era acusado. Essa semana, ela lançou um disco e uma das músicas, de autoria de Moacyr Luz, coloca com bom humor, essa face da discriminação, quando canta: “Estranhou o quê? Preto pode ter o mesmo que você”.

Como disse o historiador William Pretzer, americano branco e diretor do Museu Nacional e Cultura Afro-Americana, pessoas bem informadas, ao visitarem o museu, falam: “Por que eu nunca soube disso?” ou “Por que isso não estava nos meus livros?”.

Ainda existem muitas raízes que precisam ser expostas, meu velho. Caminhamos; mas não chegamos lá ainda.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

PS.: Mais uma vez, devemos a vocês, livros, a chance de ouvir vozes de outras etnias; às vezes escrava, às vezes livre, mas necessárias. São muitos os livros vindos de autores negros de vários continentes. Não dá para falar de todos, mas eu destacaria “Entre o mundo e eu”, de Ta-Nehisi Coates, editora Objetiva e “A autobiografia do poeta-escravo”, de Joan Francisco Manzano, da Hedra. Também, “Um grão de trigo”, de Ngusi Wa Thiongo, da Alfaguara, um clássico da literatura do Quênia. “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, da Record; a versão feminina de uma família africana também em busca de suas raízes. E o que leio agora, ganhador do Pulitzer, “The Underground Railroad  ̶  Os caminhos da liberdade”, de Colson Whitehead. E a Flip vem aí, com ótimos autores convidados, fazendo jus ao grande Lima Barreto, filho de mãe escrava e pai português. Há muita história ainda para ser contada, meu velho.

Este é o vídeo do Nego Álvaro. Adianto que ele foi solto na mesma noite.

https://www.facebook.com/alvaro.carnei/videos/10203594470457925/

E continua tocando e cantando para nossa alegria.

https://www.youtube.com/watch?v=TK9hZVbeBFk

Piratininga, 30 de junho de 2017

img

FLIP 2013. Baleia vive.

 

E aí, meu velho?

Em nossas cartas, tenho afirmado que considero vocês, livros, grandes amigos nossos. É a mais pura verdade. Dada a chance de conhecê-los, as horas e as tardes frias se tornam menos desinteressantes. Vinicius de Moraes disse que “o uísque é o cachorro engarrafado”, colocando o destilado como o melhor amigo do homem (as mulheres, certamente, discordariam do tipo de bebida). Mas como Vinicius era tão competente com um copo na mão quanto com uma caneta, temos então a junção perfeita: uma boa dose de bebida alcoólica para libertar a alma e um bom livro para soltar a imaginação. Ou seria o contrário?

Na verdade, esta carta não é para defender o uso de livros e bebidas, por mais que a mistura seja bem adequada. E para falar do que Vinicius sugeriu metaforicamente como conteúdo da garrafa: o cachorro.

Não se sinta diminuído por colocar na mesma roda de um grande amigo, o dito animal de quatro patas, olhar pidão e um enorme desejo de agradar a esta raça mal resolvida chamada humano, da qual o leitor aqui faz parte.

Cães, assim como livros, valem muitas cartas. Tive alguns. Diga-se que uns “bons alguns” desde criança. Foram 17, entre os de raça e muitos vira-latas. Talvez por ter tido tantos cães, achei que meu caminho como escritor ou homem voltado para as artes, estaria bem encaminhado, já que em diversas fotos, pintores, escritores, tinham aos seus pés ou mencionados em suas obras, cães simpáticos, cães rebeldes, cães preguiçosos ou cães cães.

De todos que tive e amei profundamente, na vida e na partida, o último foi o que mostrou maior interesse pelas letras. Devorava livros como ninguém e tinha um gosto especial pelos livros em quadrinhos de Tin Tin. Chegasse eu tarde em casa e lá estava, retirado da estante com uma precisão de bibliotecário, espalhado pelo chão, selecionados com critério crítico, nacos de algumas páginas. Ele sabia como me ferir.

O nome desse leitor voraz era Leão. Ele foi achado numa poça de lama após uma enxurrada. Eu havia acabado de mudar para uma casa em Piratininga, na cidade de Niterói, quando uma vizinha amiga, bateu em minha porta e falou: “Olha quem eu achei quase afogado?” E aí a história segue com outros cães de antes e depois.

Leão, vira-lata da melhor estirpe, foi o último que tive. A partir daí, passaram a ser os “cães dos outros’, descolando um afago aqui, um abraço ali, um focinho gelado por proximidade.

Com muito mais livros e nenhum cão (por mais que seja tentado a ter, mas ainda sentindo aqui dentro a partida de todos), vejo que ambos, têm uma longa história. Algumas foram além das páginas, pois simbolizaram o drama do homem por meio da sua percepção. Baleia, de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, talvez seja a face da amizade do cão pelo homem mais citada e referenciada da literatura brasileira. Que eu me lembre, é a morte mais chorada de um animal na literatura. Não sei se algum livro sobre curiosidades de cinema aí na estante onde habitas, menciona a história que aconteceu quando da transposição do livro para filme pelas mãos de Nelson Pereira dos Santos. Ao ter a cena da morte da Baleia no filme apresentado no Festival de Cannes, o público e a crítica reagiram, acreditando que realmente, a magrela cadela havia sido morta. Note, meu velho, que supor isso, numa época em que não existiam ONGs de proteção dos animais e órgãos voltados para isso, me faz pensar que os europeus achavam que além de índios, selvas e bichos exóticos, nós também fazíamos cinema com as mãos sujas de sangue. A Baleia do filme ganhou passagem na classe econômica e voou até Cannes para mostrar que estava viva, leve e solta.

Desse que é um dos meus escritores brasileiros preferidos, Graciliano Ramos tem, certamente, uma das páginas mais emocionantes sobre o que é ser um cão na vida dura dos homens. Fato é que, na sua vida pessoal, também deveria viver com algum próximo. Saramago, como disse na carta anterior, vivia com seus cães que foram chegando até “A Casa” na Ilha de Lanzarote (do lado de fora, ao lado da porta, havia essa placa dizendo que “A casa” de Saramago era…a casa. Simples e poético assim). Numa carta futura, volto ao tema do escritor português e seus cães que inspiraram personagens caninos em seus livros.

E Saramago, sendo sempre Saramago, definiu bem o que são esses seres: “Encontro nos cachorros mais humanidade que nos homens”. Graciliano, certamente, concordaria. E cães latiriam.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

PS: Cães já deram em grandes personagens de séries e filmes. Em alguns casos, foram melhores atores e atrizes do que os que falavam. Teria recomendações óbvias de livros com cães, mas gostaria de lembrar dois textos; um conto e um livro. Ambos são excelentes e talvez, pouco conhecidos. Mas para quem ama livros e cães, são imperdíveis; “Argo e seu dono”, de Italo Svevo, da Berlendis & Vertecchia Editores e “Da dificuldade de ser cão”, de Roger Grenier. Se eu tivesse um, leria para o amigo peludo.

 

leao

Leão, o devorador de livros.

Ilha de Lanzarote, 21 de junho de 2017

saramago2

E aí, meu velho?

Só para te deixar a par, a nossa menina Rivânia, da carta passada, recebeu livros doados por um senador de Pernambuco. Não vou julgar o senador por ele fazer parte da classe mais mal falada do país. Pode ser até que ele seja um bom senador. Pelo menos já mostrou ser um senador bom ao doar livros para ela. Espero que sua mochila esteja sempre cheia, meu velho.

Feita a lembrança, vamos à carta desta semana: falar de um escritor que descobri pelas mãos de um amigo meu. Um escritor nascido na Portugal flagelada por um incêndio dramático nos últimos dias. Que coisa não, meu velho? Em duas cartas seguidas, duas tragédias; uma com água e outra com fogo. Se ele ainda pudesse escrever, falaria dessa tragédia sem a obviedade dos mortais e, certamente, lembraria que mais uma vez, o poder público deixou por fazer algo que poderia ter amenizado o desastre.

Tive a sorte de ver este escritor ao vivo. Faz muita falta não escutá-lo mais. Resta ler e reler seus livros, torcendo que mais um manuscrito perdido seja descoberto, como já aconteceu. Existe ainda o YouTube, mas nada recente para a sua língua crítica.

Seria um José como muitos, mas sendo Saramago, foi único. No dia 18, ou seja, domingo passado, aconteceram sete anos de sua ausência. Para ele não vale dizer “que foi desta para melhor”, porque gostava bastante da vida na Terra. E nem aceitaria nenhuma menção ao paraíso celestial, pois está escrito em um dos degraus da Casa dos Bicos onde mora a Fundação José Saramago, em Lisboa: “Não subiu para as estrelas se à terra pertencia. E aos leitores!” (frase do livro “Memorial do Convento” acrescido de uma lembrança sobre nós, os que leem).

Espero que seu amigo leitor tenha alguns Saramagos enfileirados na prateleira. Por ser ateu e comunista, ouvi alguns condenarem seus escritos pelas escolhas políticas. Como sou apaixonado por livros e não crítico literário, minha opinião vale um pastel de Belém: Saramago foi para mim, um dos que melhor questionou a razão da Igreja existir. Para ele, o ser humano, do qual ele tinha pouca esperança, mas ainda assim amava, era a grande questão e o centro de suas preocupações. Na Ilha de Lanzarote, ele, sua mulher Pilar Del Rio e alguns vira-latas, viviam atrás de paredes brancas cuja morada se chamava “A casa”. Viviam o exílio voluntário por ter a obra “O Evangelho segundo Jesus Cristo” censurada em Portugal.

Na sua visão crítica sobre Deus e Igreja, duas frases são emblemáticas: “Por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o mais horrendo e cruel”.

E outra: “O cristianismo tentou convencer-nos de que devíamos amar-nos uns aos outros. Eu direi uma coisa muito clara: não tenho a obrigação de amar toda a gente, mas sim de a respeitar”.

Do meu lado Apostolo, vivi duas experiências com Saramago. Em ambas, a sua fina ironia esteve presente.

Vamos ao encontro ao vivo. Saramago estava mais uma vez no Brasil para lançar um livro. Lá estava eu, acompanhado de mais dois saramaníacos, atento as falas e, quem sabe, a possibilidade de um autógrafo. Aviso: não sou um caçador de assinaturas. Mas a dele eu queria.

Chegada a minha hora na fila, entrego um exemplar de “Levantado do chão”. Saramago olha para mim e pergunta qual era o meu apelido. Tentei lembrar de alguns que me impuseram por bulling na escola. Ele, sábio diante da minha ignorância lusófona, falou: “Me desculpe; aqui no Brasil fala-se sobrenome”. Eu, tentando manter aquela cara de “claro, claro, eu já sabia”, falei: “É Apostolo”.

Ele me olhou seriamente e pensei: “Onde foi que eu errei, meu Deus!”. Mas em seguida, abriu um sorriso e vendo que eu não estava tentando ser engraçado, comentou: “Apostolo? Que responsabilidade, hein?”. E autografou meu livro.

Independentemente do belíssimo exemplar autografado de “Levantado do chão”, me arrependi de não ser o “O Evangelho segundo Jesus Cristo”. Estaria completo aquele momento ateu cristão.

A segunda passagem é de um texto dele e, de novo, meu sobrenome em questão. Chama-se “O décimo terceiro apóstolo” do livro “A bagagem do viajante”. Outro dia, uma amiga recente, ao ouvir que meu sobrenome era Apostolo, deu uma risadinha: “Verdade mesmo?”. Mesmo com a risadinha, continuamos amigos.

Às vezes, quando me apresento, uso a brincadeira de que sou 13º apostolo e não cheguei a tempo para a foto. Perdi o jantar mas salvei a cabeça. Anos atrás, me deparei com esse texto que redefinia o 13º apostolo como “algo que corre o mundo e fala todas as línguas”.

Para Saramago, o 13º apostolo era a publicidade. E como já disse em cartas passadas, trabalho com a dita há muitos anos. Isso significa o quê? Nada. Ou alguma coisa que eu até hoje não compreendi. Só sei que para Saramago, Apostolo sempre esteve presente. E posso dizer que o leitor aqui e o escritor acolá, tiveram uma partícula de história em comum.

Sobra o consolo de suas palavras: “A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar em um lugar”. Estamos juntos, meu velho, onde você estiver.

L.

PS: Recomendar um ou outro livro de Saramago é como dizer: “quer viajar de executiva ou primeira classe?”. Para quem deseja descobrir Saramago, sugiro ler a primeira página de cada um de seus livros. Uma irá fluir mais facilmente que a outra. Mas tenho certeza de que quem se aventura pela escrita de Saramago, não teme os riscos.

PS.: Hoje é o dia de nascimento do nosso grande Machado de Assis. Mas ele vai me perdoar por ter falado de Saramago, um fã seu. Fico te devendo uma carta, Bruxo.

FullSizeRender

Pernambuco, 14 de junho de 2017

Captura de Tela 2017-06-12 às 11.52.30 AM

E aí, meu velho?

É comum ouvir que livros já salvaram pessoas. Sim, porque vocês são capazes de abrir universos, de levar conhecimento, de ocupar a solidão, de transformar leitores em escritores. De fazer rir, o que é quase uma façanha nos tempos de hoje.

A responsabilidade que jogam sobre vocês é grande. Salvam crianças dos desencantos da infância injusta, salvam almas que não têm onde pousar, salvam jovens que aguardam a palavra mágica, salvam a alegria que, às vezes, achamos ter sumido. Salvam a capacidade de imaginar e fantasiar.

Pois tenho uma notícia para você: vocês também foram salvos.

Não foi uma doação de uma biblioteca particular para uma universidade.

Não foi o surgimento de uma nova editora.

Nem um teórico que defendeu que o livro não morreu.

Nem pense também que doei (ainda não) os meus livros. Muito menos que bombeiros salvaram uma biblioteca pública de um incêndio.

Mas este salvamento foi tão corajoso e tão arriscado quanto em um prédio de 20 andares em chamas. Um gesto maravilhoso por um motivo dramático.

Foi uma menina. Mais uma vez uma menina. Lembra que escrevi uma carta tempos atrás falando de uma menina que já tinha lido 400 livros e ia fazer uma biblioteca em casa para os 2 mil livros que guardava?

Pois bem. Se aquela era a menina que vivia livros, essa agora é a que salva. Os meninos precisam começar a reagir.

Ela sobreviveu (e com ela, seus livros escolares), das avassaladoras chuvas que aconteceram em Pernambuco, no nordeste do Brasil, duas semanas atrás.

Rivânia tem 8 anos e viu sua casa ser invadida pelas águas. Foi resgatada em uma canoa. A imagem, como diz a matéria no jornal, comoveu as redes sociais. Dá para ver na foto, o olhar desamparado de algo ainda não é entendido, porque não é justo ela estar ali. Apoia-se sobre o seu futuro; são os seus livros escolares que estão salvos na mochila. Seus amigos de papel sobreviveram das águas por todos os lados.

A mochila está bem estufada. Se olharmos pela velha medida da quantidade, talvez não sejam livros suficientes para justificar o risco que ela possa ter corrido para salvar caras como você, meu velho.

Mas para ela significavam todos os livros do mundo. E não só para ela. Representam todos os livros das bibliotecas arrasadas; das fogueiras nazistas para a eugenia do pensamento; das inquisições religiosas por uma adoração única.

Na mochila da Rivânia cabia todo o mundo dos sonhos, da esperança, da fantasia.

A menina com o seu gesto, salvou livros escolares. Na mesma enchente, uma outra menina, salvou suas bonecas, arriscando a vida com água até a boca.

Livros e bonecas têm mais em comum com essas meninas do que se imagina.

Sonho e futuro é o que os objetos salvos representam, seja quando os olhos acompanham as linhas escritas em uma página ou quando as pequenas mãos penteiam os cabelos artificiais da boneca, que certamente, devem ter nomes próprios como as meninas. Cada uma abraçada com seus “filhos”, que arrisco dizer, fazem parte de uma descoberta como ser feminino.

Infelizmente, o que ambas também têm em comum, são incertezas. De poder acreditar em um horizonte inspirador e promissor. Só a chegada das águas é dada como certa; na semana anterior ou no ano seguinte. E com elas, o risco de verem suas paixões arrastadas para longe.

Rivânia salvou seus livros; a outra menina, suas bonecas. Mas com que país podem sonhar para salvar a infância delas?

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

PS: Certamente, a Rivânia gostaria de ter na sua mochila, livros de meninas, com princesas e animais mágicos. Ou de fã mesmo, escrito por autoras mirins empoderadas. Mas a vida só lhe deu livros de escola até agora. Se eu pudesse colocar livros na sua mochila, deixaria alguns de Monteiro Lobato, nos quais ela poderia se ver representada na sagacidade de Narizinho e na coragem de Emília. Também colocaria o livro “A árvore generosa”, de Shel Silvestron e a trilogia de Suzy Lee, “ Espelho, Onda e Sombra”. O primeiro fala sobre a amizade e o amor, mostrando que esses sentimentos sempre encontram um jeito de dar algo quando parece não existir mais nada. E a trilogia de Lee, mostra quanto uma imagem pode narrar uma história sem usar uma palavra. Como o rosto de Rivânia, meu velho.

 

Sertão, 31 de maio de 2017

BMonfort

E aí, meu velho?

Não sei se já comentei aqui em alguma carta sobre o que faço na vida. Não espere uma grande revelação. Não sou lobista, nem político (não como profissão), muito menos um hábil jogador de futebol, por mais que seja apaixonadamente e irracionalmente, um torcedor. Da sua estante aí, muitas tardes de domingo devem ser passadas na frente de uma TV, entre comentários óbvios da ineficácia de um time e interrupções publicitárias que ainda me lembram os tempos de “Mad Man” ( uma série de TV já encerrada e que também é livro).

É justamente esse segundo universo que habito: o da publicidade. Ele que vem pagando as contas – que não são poucas – e garantindo a minha paixão por caras iguais a você, meu velho. Não vou falar muito mais, porque não acho que é do seu interesse. A mim, pouco interessa também comentar sobre minha profissão.

Mas é curioso falar sobre os contatos que, por causa dela, acabo fazendo com pessoas mais jovens. Sempre que fui ou sou convidado para palestras em universidades, lembro sempre a eles que ler é a melhor forma de construir raciocínios. Mesmo que não venham a ser redatores publicitários, devem saber expressar e desenvolver pensamentos ordenados para apresentar e defender suas ideias por meio do texto. E uma história nada mais é que um raciocínio sobre algo contado de um jeito interessante, cativante e, de preferência, provocante.

Tento passar minha paixão por livros e leitura. Digo para acharem o livro que tenha a ver com eles, mas que nunca desistam da leitura. Uma boa leitura virá quanto mais eles se permitirem descobrir caras como você, meu velho.  Que leiam além das mensagens e posts no Facebook ou do twitter, porque correm o sério risco de virarem os sábios dos 140 caracteres, como o do topete amarelo.

Lembro que no colégio, algumas leituras mais “parrudas” eram colocadas como exigência. Acho que fui um dos poucos na minha sala que leu “Os Sertões”. Era uma edição de bolso da Ediouro: texto parrudo em letra miúda. Em alguns momentos, confesso, me senti como a cachorra Baleia de outro grande romance “Vidas Secas”, atravessando as áridas e brilhantes passagens da obra de Euclides da Cunha. Para jovens de 15 anos, era um desafio. Mas eu amava ler, fosse difícil ou fácil o ato.

Não entenda como soberba literária, meu velho, me mostrar leitor dessa obra tão importante na literatura mundial. Li muito livrinho de bolso da Editora Monterrey, meu caro. Vaguei pelo mundo com a espiã Brigite Monfort, me diverti com as aventuras bem-humoradas do espião K.O. Durban, fui o mais rápido no gatilho em inúmeros livros de faroeste. Livros de bolso com personagens internacionais escritos por brasileiros. Confesso que escrevi algumas páginas em cadernos, sonhando virar e viver dessa literatura de bolso. Eu era fascinado pelas capas, principalmente, as que tinham a morena espiã ilustradas pelo grande Benício. Tem um livro sobre ele “E Benicio criou a mulher…”, de Gonçalo Junior.  E que mulheres, meu caro.

Curiosamente, anos depois, a publicidade de que falei, me fez trabalhar com essa maravilhosa figura e talentoso profissional numa agência de propaganda. E sei que parte da minha proximidade com o grande Benício, aconteceu graças aquelas pequenas histórias de bolso guardadas por trás de suas capas, expostas em bancas de jornais. Um fã de bolso. Ah, e as bancas de jornal? Um parque de diversões. Um dia conto para você sobre eu e elas.

Enfim, li coisas divertidas, li coisas que não leria mais nem por diversão, li coisas que me impressionaram, li coisas que me recomendaram e outras que descobri. E sempre tentei passar isso para outros. Dessa paixão de abrir a primeira página de um livro e seguir em frente.

Por isso, quando vi crianças repetidas vezes, sem dormir, à espera de um lançamento de mais um livro de Harry Porter, de imensas páginas prontas para serem devoradas por seus leitores em todo o mundo, pensei: é isso! Ache algo que estimule a leitura e deixe que cada um siga seu caminho como leitor depois.

“Os Sertões” ainda vive na minha memória. Me impressionou. Me transtornou. E confesso: meu deu um ar de leitor vencedor. Mas por outro lado, fez também que meus colegas achassem que ler era um processo doloroso. A culpa não era de Euclides nem do meu professor. Não havia um culpado. Havia sim, a falta de um entendimento sobre o momento certo para a história certa. Nunca perca um leitor, não é, meu velho?

Afinal, toda história merece a oportunidade de ser mágica, mesmo não sendo de bruxos. E algumas, têm a hora certa para verem seus segredos desvendados.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

PS: Livros parrudos nunca me assustaram. Mas concordo que eles merecem uma dedicação acima do tempo que temos, ainda mais quando se tem o hábito de ler mais de um no mesmo período. Quando li as quase 600 páginas de “As Vinhas da Ira” de John Steinbeck, foi como ler uma novela de 30 páginas. Outro que também me fez perder a noção do número de folhas – e eram mais de 600 –  foi “Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro. Hoje, tento contrabalançar livros menores em tamanho, com os maiores, mas confesso que minha desenvoltura já não é mais a mesma. Então, para um jogo rápido na atualidade, vamos por partes e por páginas. A partir de 150 páginas, vale “A Resistência”, de Julian Fuks, Prêmio Jabuti 2017 em romance. De Ian McEwan – um dos meus preferidos – para ficar em 200 páginas, tem “A Balada de Adam Henry”, “Na Praia” e o recente “Enclausurado”. Pulando para 300, temos “Stoner”, de John Williams, da excelente editora Londres. A partir de 400, “As Rãs”, de Mo Yam. E, acima de 600, “Os Detetives Selvagens” e “2666”, de outro preferido, Eduardo Bolaño. E, você, meu velho? É P, M, G ou GG?