Rio, 24 de maio de 2017

227290-370x270-1

E aí, meu velho?

Tenho uma novidade para você: ganhamos uma leitora de nossas cartas. Em tempos de Snowden, nada mais me surpreende: conseguirem ler o que é confidencial.

De qualquer maneira, não me incomoda dividir nossas cartas com mais alguém e, certamente, o mesmo deve acontecer com você. Afinal, elas não revelam nada que possa nos colocar em uma situação delicada diante do cenário atual. São uma troca amigável da minha paixão por vocês, livros, e de você, espero, pelo leitor que escreve.

Subornos aqui, só de elogios. Dinheiros repassados, apenas para os cartões de crédito no caixa da livraria ou sites de livros. Tráfico de influência? Só de autores que me fizeram pensar ou buscar outros.

Voltando à leitora que descobri, só sei o primeiro nome dela: Claudia. Enquanto equilibra um livro no colo, ela registra o controle da comida a quilo e, ao final, dedilha os números que irão se tornar mais uma conta a pagar, que me parece, às vezes, uma das principais missões da gente na Terra. A Claudia me disse que lê de tudo; já leu histórias de vampiros, mas agora os deixou pendurados de cabeça para baixo e se aventurou em outros escritos. Diz ela que vai da ficção ao mundo real. Mas isso é o de menos: o que ela gosta mesmo é de ler livros. Ou seja, caras como você.

Se eu não estou enganado, ela estuda Direito à noite. Realmente, estamos precisando muito disso atualmente. Um Direito direito. O mais interessante disso é que há uma certa elitização do pensamento quando nos surpreendemos com a descoberta de alguns leitores. Talvez pela sempre repetida premissa de que o brasileiro não lê, acabamos jogando no mesmo balaio, alguns preconceitos enraizados na nossa vida.

Nos surpreendemos porque uma caixa de supermercado lê livros em vez de revistas de famosos. Ou que um açougueiro em Brasília tenha decidido que a melhor forma de fazer as pessoas esperarem pela peça de fraldinha, era deixando à disposição, uma estante com livros para pegar, ler e devolver. Ou como saiu outro dia numa coluna social de um jornal, a revelação de uma funcionária em um bar no Rio, que entre manter limpo o banheiro e repor o estoque de toalhas de papel, lê livros que pega emprestado com sua vizinha na comunidade onde vive, o Complexo da Maré. O nome da leitora de 18 anos é Beatriz Costa. Fiquei muito curioso em saber quem é a vizinha dos livros.

A verdade é que vocês, meu velho, não escolhem leitores. Quem os deixa de fora somos nós, quando não incentivamos a leitura nos filhos, nas rodas de amigos, nas conversas, nas escolas. Quando dificultamos o acesso aos livros pelos preços que, infelizmente, afastam leitores. Você sabe e eu sei, que a leitura precisa ser desenvolvida. Que não é um ato tão natural como parece. Mas isso a torna fascinante porque, alguém que vence essas barreiras quando jovem, será um leitor para vida toda. Tomara que um dia não nos surpreendamos mais com as origens dos leitores.

Ler tem duas descobertas: a da história que o livro revela é uma. A outra é que quem se descobre leitor é um vitorioso na conquista dessa invenção genial: você, o livro.

Uma coisa que me ocorreu agora é descobrir o que a Claudia anda lendo entre um quilo e outro. Acho que vou tratar de levar algumas gramas de papel bem escritos para ela.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

PS: Esqueci de comentar que a Claudia disse que nossas cartas têm ajudado a descobrir novas leituras. Acho que nem você nem eu, pensamos em assumir tal responsabilidade. Só estamos conversando do que gostamos. Por outro lado, faz uma cosquinha no ego saber que a gente pode fazer uma diferença para alguém. Por isso, se a Claudia estiver lendo essa carta, eu recomendaria um livro em especial: o próximo que ela ainda vai descobrir. Não há nada mais recompensador do que ser a dona da sua própria história como leitora.

Aeroporto, 10 de maio de 2017

unnamed

E aí, meu velho?

Diferentemente do que cantou o agora distante e talentoso Belchior, não foi por medo de avião que decidi que, ao viajar, levaria na bagagem de mão (e na outra também), alguns colegas seus. Primeiro, porque lendo em um voo, a sensação de estar usando um tempo preciosamente perdido para uma boa leitura, compensa meu constante desespero de ter mais livros do que tempo para lê-los.

Segundo, nada mais chato, enfadonho e perigoso do que um voo de avião. Não pelo fato de que ele possa cair (se pensasse nisso nem subiria nele ou ficaria embaixo de um), mas porque corre-se o imenso risco alguém ao seu lado querer conversar. Ok. É uma postura antissocial. Que seja. Melhor um antissocial do que a falsa simpatia de parecer interessado sobre a vida ou opiniões do outro. É a diferença de um bom ou mau livro: a história pode ser boa, mas ao ser mal contada, torna-se chata. A probabilidade do seu parceiro de poltrona ser mais chato que bom contador é grande. Não arrisco.

Durante minhas viagens de avião, das curtas às longas (mas nunca suficientes em vezes como turista), observei que um cara como você, meu velho, além oferecer uma boa leitura, deve ser prático e sagaz. Prático porque, estando na mão ou na mochila, leveza e dimensões contidas favorecem o uso. Quem tenta agilizar a elevação de sua mala de mão para o bagageiro tendo que segurar um livro de 400, 600 ou até para os corajosos e intrépidos, 900 páginas, sente-se xingado em pensamento pelos que aguardam o infindável caminhar do corredor da aeronave.

Quanto a ser sagaz, vale medir o tempo de viagem, seja a trabalho ou lazer, seja de voo ou em terra. Para viagens de pouca duração, pequenas brochuras ajudam. Por exemplo: numa ponte aérea Rio- São Paulo, você poderá dar cabo da história dividida pela ida e a volta. Se for ficar na cidade e voltar dois dias depois, um livro de 150 até 200 páginas pode ser suficiente. Lógico: suficiente também pela qualidade da escrita. Afinal, em viagens curtas, em que não se pode ver um filme por inteiro (quando tem disponível) ou apenas passar o tempo mastigando um sanduíche frio (quando oferecem), um livro é tão importante para salvar a viagem quanto o piloto.

A outra circunstância está diretamente ligada não apenas ao volume de páginas, mas, principalmente, ao tamanho do amigo de leitura. Existem livros de longas histórias compactadas em pequenos e moldáveis tamanhos. Isto significa que é possível levar mais de um livro, com histórias suficientes para acompanhar os voos, esperas em aeroportos, travessias de barcos, ônibus ou trens. São grandes histórias em pequenos volumes, em tamanhos que dispensam mochilas, pois cabem em bolsos de casacos, e que, como colocado na segunda premissa, mostra o quanto o leitor viajante é sagaz e hábil no manuseio do amigo aí.

Bem, acho que essa conversa de livro e viagem ainda pode ser tema de uma outra carta. Para completar com mais um medo real de leitor viajante, numa viagem de alguns bons dias, principalmente no exterior, temo que a leitura acabe no meio, sem ter como adquirir um outro livro. Isso pode ocorrer por não ter onde comprar ou por não dominar a língua. Afinal, uma boa leitura numa praça ou na mesa de um bar em outras terras é tão local quanto rever mais uma vez aquela obra em um museu ou saber para onde virar na esquina em uma língua que não é a sua. Só de pensar na falta de algo para ler em momentos “outs” de uma viagem, sinto arrepios tanto quanto perder uma conexão. Exagero: perder uma conexão é pior. Mas sem nada para ler enquanto se espera o nem assim tão próximo voo, entramos na categoria de tragédia aérea em terra.

E você, meu velho? Tem viajado muito ou continua aí, relaxado, na estante?

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

P.S: Muitas editoras já botaram grandes histórias no bolso (ou na bolsa). Se você reparar na foto que acompanha esta carta, verá alguns exemplares disso. O do Graham Greene vem da clássica editora de livros de bolso L&PM do sul do Brasil. Outra também que sempre prima por belas capas gráficas, independentemente dos centímetros da obra, é a Companhia das Letras. Um espetáculo na forma e na fôrma. Atualmente, tenho babado (não sobre os livros, claro), com algumas novas editoras. Isso já valeria uma carta. Mas, especialmente sobre pequenas grandes obras, duas editoras me conquistaram: a Carambaia e a Grua Livros. A primeira tem edições de capa dura, graficamente lindas por fora e por dentro e com histórias até não publicadas no Brasil. Os seus colegas desta editora, exigem bolsos um pouquinho mais largos. Sugiro o uso de um casaco na viagem, salvo se for para os 45 graus do Rio de Janeiro. Já os seus amigos da Grua Livros são grandiosamente simples: minimalista no Pantone das capas, elegantes e finos na espessura, mas geniais por trazerem a categoria novela para as nossas mãos. Clássicos que já nascem clássicos. Foi o jovem livreiro Marcelo, da Travessa de Ipanema, que despertou minha manhã de sábado com esses achados. Vale ter todos. Estou me esforçando para isso, meu velho. Ando conversando muito com o meu cartão de crédito.

New York, 26 de abril de 2017

D13C9E5C-6A4D-4591-BA05-372AA8956088

E aí, meu velho?

Repare na foto que mandei com esta carta. É de uma vitrine que vi anos atrás em New York, cidade onde um dia, uma livraria em cada esquina era tão comum quanto uma lanchonete com hambúrguer. A pilha de livros que penetra no teto indo para o infinito e além, traduz bem a sensação que tenho sobre a minha necessidade de ler: dará tempo?

Aí na estante onde você vive deve ter algum exemplar que inicia com o título “1.000 coisas para fazer antes de morrer”. Como se já não faltassem as obrigações impostas pela vida vivida, além da incontestável verdade que uma hora ela acaba e vamos sair dessa para melhor (eu acredito que o outro lado não pode ser pior do que o de cá), essa moda mercadológica invadiu as livrarias lá pelo início do ano 2000, se a memória não falha. Quer dizer, falha.

Óbvio que o oportunismo editorial ampliou a lista: lugares para conhecer, comidas para comer, filmes para ver, vinhos para beber, e claro, livros para ler. Quem pensou nesse filão lá atrás não antecipou duas coisas.

A primeira é que a nossa vida plana seria engolida pela tecnologia e, avassaladoramente, alterada pelo volume de coisas para dispersar nossos mais básicos desejos. A segunda é que, no caso específico do livro, nunca se publicou tanto e com tanta qualidade.

Nessas horas, meu velho, recorro ao mestre Luis Fernando Veríssimo, que numa recente coluna no jornal, confessou que a sua maior inveja é de uma pessoa que, com cara de cachorro em dia de mudança, desabando na poltrona, suspira e diz: “Estou sem nada para ler”.

Surpreendente e revoltante, você não acha? Veríssimo cita uma frase que sempre uso para justificar a ânsia incontrolável por “mais um livro” lá em casa: quem gosta de livros tem dois prazeres; um quando compra, outro quando lê. Ok, é compulsão, mas é melhor do que drogas injetáveis, listas com mil coisas para fazer antes de morrer ou discos de música sertaneja. Melhor ter livros na estante, cabeceiras e afins.

A verdade é que em relação a lista que começou sendo de 1.000, inventaram que deveria ser 1.001. Então, seriam 1.001 livros para ler antes de você já sabe o que. Acho um mistério interessante esse “1”. Porque ter 1.000 livros para ler é desafiante. Agora, esse “1”, o derradeiro, o último, aquele que eu levaria como a definitiva lembrança de convivência com você e os seus, meu querido e velho amigo de papel, teria que ser mais que especial. Teria que ser eterno. Igual ao lugar onde jogam as cinzas do defunto. Eu, por acaso, sei que vou virar pó, mas aonde ele irá parar, confesso, deixarei para para decidir quando não tiver mais nenhum livro para ler. Será que a danada irá esperar?

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

PS: O pensador e intelectual Aurélio Buarque de Hollanda disse certa vez: “A vida é muito curta para ler o que se quer. Na dúvida, volte sempre aos clássicos”. Certamente, essa declaração é um tiro no coração dos compulsivos como eu. Italo Calvino já escreveu um livro justificando “Por que ler os clássicos”. Como não sei se Aurélio Buarque fez sua lista de clássicos para ler antes de morrer, vou começar a fazer a minha antes que o tempo acabe. Pode deixar que não vou esquecer de você, meu velho.

 

Porto, 12 de abril de 2017

4542378138_48f40e6bc9_o-1

E aí, meu velho?

Nem bem a carta passada chegou até você e leio no jornal que a gigante americana de e-commerce (que vende eletrônicos, moda, tvs e até livros), conseguiu exclusividade para vender sete títulos de uma editora no Brasil por quatro meses.

Isso significa meu velho, que se você fosse fruto dessa editora, poderia não esbarrar com novos leitores numa bancada, ser visto numa vitrine, passar de mão e mão ou pior: sem Wi-Fi, nada feito para manter contatos de qualquer grau.

E eu aqui, sonhador na última carta, falando sobre a iniciativa democrática de trocar livros pelas casinhas instaladas em ruas, leio essa notícia de exclusividade. Se a moda pega, as livrarias de rua, que hoje demonstram sinal de recuperação no mundo, voltam a ficar ameaçadas, porque além da exclusividade, a briga por preço canibaliza o mercado. Eu sei que essa é uma conversa chata, mas eu precisava alertá-lo.

Muitas livrarias fecharam nos últimos anos, aqui e fora daqui. Uma livraria que fecha, encerra mais que portas. Ela interrompe a experiência, o contato, a troca, o surpreendente. Livrarias são parte da vida feita de tantas vidas escritas.

Algumas conseguiram resistir e até mostram sua força por serem o que são: apenas livrarias. Livrarias que vendem livros. Que podem até ter um café dentro, mas tendo o livro como companhia. Que até vendem ingresso para visitação por sua arquitetura, tal como um museu faz para obras de arte. A Livraria Lello, no Porto, em Portugal, que mora ali na Rua das Carmelitas, 144, cobra 3 euros para que os visitantes vejam a sua bela arquitetura. Este valor é abatido na compra de um livro. O motivo do ingresso, justificado pelo dono, é a necessidade de uma verba adicional para a manutenção da bela arquitetura interior em madeira, pois ela recebe, no mínimo, 2000 pessoas diariamente. 2000 pessoas para ver uma livraria. Como disse, é como pagar entrada para um museu com a vantagem que você pode levar as obras de arte.

A Lello é considerada “a livraria mais bela do mundo”, pois nasceu como livraria para virar santuário de livros, diferente da El Ateneo, em um teatro de Buenos Aires e a holandesa Boekhandel Selexyz Dominicane, em uma igreja. Dizem que sua arquitetura inspirou a cenografia da livraria do Harry Porter.

A Lello é uma livraria feita para aquilo que as livrarias são feitas: encontros. Com livros, com gente, com apaixonados, com bons papos, com algumas horas em que o mundo lá fora, com ou sem bombas caindo, não consegue entrar.

Você pode até supor meu velho, que por eu já ter abordado essa relação entre um livro como você e seu semelhante digital, esteja buscando sarna para me coçar, antagonizando o comércio físico das livrarias versus e-commerce, em mais uma batalha quixotesca. Como disse na carta anterior, não sou contra tecnologia e acredito na serventia de cada coisa. A verdade é que o e-commerce permite que você compre livros mais baratos, seja dessa empresa americana ou das próprias livrarias. Essa grande empresa, garante o preço baixo do livro vendendo milhões de outras coisas. Já as livrarias que só tem um negócio – vender livros que não vêm dentro de um micro-ondas-, sofrem com esse desequilíbrio de mercado. Mas mercado é mercado. Ninguém disse que teria que ser justo. Só que ao comprar o passe de exclusividade do lançamento de livros de uma editora, como se estivesse contratando escritores, acende o alerta para o risco de monopólio da gigante americana. E o desprezo da editora por um ser fundamental nessa história: o livreiro.

Quando o pai de todos inventou vocês, ele democratizou o conhecimento, antes restrito aos monastérios e a alta corte. Hoje, Gutenberg talvez, lendo essa noticia, falasse: “Sabe nada inocente”.

PS: Alguns colegas seus, meu velho, já esmiuçaram esse mundo da “biblioindustria”. Um deles é “O negócio dos livros: como a grande indústria decide o que você lê”, de André Schiffrin, da editora Casa da Palavra. Saindo do mundo dos negócios sem sair dos livros, sempre é recomendável ler “Shakespeare & Company”, de Sylvia Beach. Além da história fascinante de uma americana que abre uma livraria em Paris com nome inglês; além dela ter editado “Ulisses” de James Joyce; além de Hemingway, Fitzgerald, Gertrude Stein frequentarem ali; além de tudo mais que se descobre nesse livro delicioso sobre a paixão por livros; a livraria ainda existe em Paris em um outro endereço e é ponto turístico visitado por milhares de pessoas. Mas aí já é outra história. Na verdade, outro livro: “Um livro por dia: minha temporada parisiense na Shakespeare & Company”, de Jeremy Mercer, da mesma Casa. E sem pagar ingresso.

Leblon, 6 de abril de 2017

apostolo foto2

E aí, meu velho?

A carta da semana passada extraviou-se. Esta será um pouco maior que o habitual para recuperar as palavras não ditas.

Correios eletrônicos também sofrem de desvios no caminho. Isso, no mundo real, acontecia de forma bastante pitoresca. Não conheci o peludo, mas minha mãe quando criança, teve um cachorro que respeitava o hábito canino de botar o carteiro para correr. Era a disputa do mais rápido: mão do carteiro por dentro do portão para largar as cartas contra o salto olímpico do vira-lata com dentes arreganhados para pegar a presa. Era o tempo das casas no subúrbio carioca e de quase nenhum prédio.

Falando em casas, meu velho, onde moram os livros? “Onde vivem os monstros” já sabemos pelo livro de Maurice Sendak e o filme de Spike Jonze. Mas vocês, os livros, onde moram?

Respostas óbvias, mas nem tão simples, nos levariam às estantes, casas, sebos, livrarias, bibliotecas.

Mas há casas hoje, espalhadas por aí, que viraram morada temporária de outros iguais a você. Como um hostel: dividisse o mesmo espaço e, assim, novos amigos. Compartilhar virou palavra chave na vida atual e os livros são ótimos para isso.

Casinhas como a da foto, guardam livros para qualquer um pegar e deixar outros para novos encontros. Iniciativas, pessoais ou empresariais, criam novos pontos de contato com leitores. Pratica-se o escambo cultural: trocasse um livro pelo outro.

E assim, de mão em mão, de casa em casa, lá vão vocês estrada afora e imaginação a dentro.

Talvez essa forma de troca física revele a força que o objeto livro tem e o seu espaço garantido nesse mundo que decreta a morte de um para justificar a vida do outro. E-books versus livros, como se fosse uma guerra.

Não sou um xiita avesso à tecnologia, senão essas cartas iriam em papel, devidamente envelopadas com a lambida na margem para selar a cola. O tempo já provou que o e-book tem seu lugar e o livro, o dele. Mas imagine essa troca que falei de um livro por outro?

Um livro digital você não passa para o outro nem troca, você acessa. O livro físico não. Ele teve um dono, mesmo quando o pegamos numa casinha. Há por trás dele, alguém com alguma história, um sentimento, um desejo atendido ao lê-lo.

Outro fato: emprestar um livro é como deixar o filho no primeiro dia de aula; será que ele irá sofrer bulling? Alguém o devolverá sem esfolados ao final da jornada? Só o livro físico provoca tantas e diferentes emoções.

Com livros de capa e papel, os sentidos são completos. O tato (que parece patrimônio do digital) tem inúmeras sensações no mundo papel. A visão, diante de uma estante de biblioteca, faz nossa imaginação avançar prateleiras acima, como um Indiana Jones pronto para escalar essa aventura. Cheiro? Livros têm e diferentes. Novos então, são quase alucinógenos. Som? O leve passar de uma página para outro revela mais uma etapa vencida. Paladar? Molhe o dedo antes de virar a página.

O valor do livro físico me leva ao jeito de fotografar antes do digital. Era um ato de suspensão. Sem saber na hora se a foto ficara boa ou não, aguardava-se até a revelação para descobrir, nervos à flor da pele, se aquele momento estava lá. O fôlego e a ansiedade ficavam em suspensão. Hoje, vemos digitalmente, se a foto ficou boa na hora. E repetimos, repetimos, repetimos. Mas aqui entre nós: elas nunca mais serão vistas. Guardadas em nuvens, ali permanecerão, na vaga certeza de que mais 500 novas fotos digitais chegarão depois da próxima viagem.

Quando não se podia ver sem revelar, as fotos voltavam mais facilmente às nossas vidas, desde quando as pegávamos na loja até folhearmos os álbuns, que na verdade, eram livros e nós, autores. A tela digital não foi feita para ver o nosso passado; só a novidade do futuro.

Enfim, ao papel o seu valor, e ao digital, as suas possibilidades.

Acabei divagando além das casas. Que venham mais. Literariamente e literalmente falando, elas têm um papel fundamental: abrir portas para novos leitores.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

PS: A casa da foto não está mais no mesmo lugar, meu velho. Ela dividia o mesmo CEP no poste em frente a Livraria Argumento, no Leblon, Rio de Janeiro. Essas casinhas são chamadas de “Ninho do Livro” e é um projeto da Satrapia que se denomina “a primeira agência de benfeitorias direcionadas exclusivamente para as cidades”. A da foto foi ilustrada pela artista e design Cris Alhadeff, que me informou que elas são retiradas para manutenção. Não sei se ao voltar para as ruas, ela voe para morar em outro lugar. Afinal, no mundo dos livros, não existe o impossível.

Rio, 23 de março de 2017

Capa de livro

E aí, meu velho?

Outro dia pensei: se eu fosse um livro, que livro eu gostaria de ser?

Sendo geminiano, ter apenas uma escolha é como pedir a uma criança que decida entre chocolate branco ou preto.

Mas foi uma pergunta que me fiz diante de tanta gente que não tem como escolher a sua própria história. Um refugiado não escolhe atravessar um mar sabendo que pode descobrir que ele é mais fundo do que imagina. Autores não autorizados impõem milhares de histórias, as piores possíveis, a estas pessoas.

São assim as guerras, as condições sociais, as heranças ruins de anos, escritas por autores que têm o poder da caneta, mas não a elegância da escrita. Muito menos a generosidade de um autor de livros.

Mas estou eu aqui querendo explicar a história do homem e da humanidade que alguns “autores” vivem reescrevendo com os mesmos erros de antes. Sou melhor leitor do que pensador.

Bem, que livro eu gostaria de ser? Como sei que você se tornou um livro pela mão e a cabeça de alguém, não teve a chance de ser o que talvez gostaria de ser.

Mas eu tenho certeza que estatisticamente, existe uma grande probabilidade de você ser um livro satisfeito com sua própria história. Primeiro, porque ganhou uma razão e uma permanência: afinal, você é um livro! Sua chance de fazer alguém feliz é bem maior do que se imagina.

Segundo, porque você nunca é o mesmo para quem o lê. Se for lido duas vezes, por duas vezes será descoberto. Isso é como ser eterno. O que o homem tenta alcançar cientificamente, você já conseguiu. Você irá durar mais de quem o escreveu, fará mais amigos de quem o leu, terá mais chances de sobreviver à ignorância do homem do que o próprio homem.

Bom, mas afinal, que livro eu gostaria de ser? Se eu disser um livro de aventuras seria uma verdade, mas sou suficientemente covarde para não me arriscar cair de um desfiladeiro. Ou no mínimo, quebrar um osso. Essas “medalhas” eu dispenso atualmente. Fico só com as cicatrizes da infância.

Um livro policial? Nada mal. Lógico que eu levaria alguns socos, respingaria sangue e sobrariam alguns hematomas, mas poderia ter algumas relações amorosas bem quentes. Minha vida de livro, certamente, não seria monótona.

Terror? Não dormiria. Manual de torneiro mecânico? Útil, mas chato. Erótico? Nada mal: me levariam pra cama. Física quântica? Não tenho cabeça pra isso.

Um livro histórico? Gosto muito de história, as vividas de verdade. Me incomodam um pouco porque não há muitos finais felizes. Acho que o autor da história da humanidade não é muito otimista com a própria. Mas, certamente, poderia contribuir para que aqueles que a lessem, entendessem que todas besteiras já foram feitas e não precisam ser aprimoradas pela repetição. É pretensioso, mas eu seria um livro, ora. Posso sonhar com isso.

Mas pensando bem, podendo escolher entre ser um romance ou um clássico; um não ficção ou teórico; um de autoajuda ou místico; acho que escolheria ser um livro infantil, podendo até ser um maravilhoso HQ.

E sabe por que, meu velho? Além da grande probabilidade de ser lindo, amado, abraçado (talvez rasgado, é verdade), mas perpetuado por gerações, eu seria também autor de uma bela história: o início de uma duradoura relação entre uma criança e um livro como você. Eu seria um mundo à parte ao mundo imposto a elas diariamente. Quem sabe volto história na próxima encarnação.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

PS: Você sabe melhor do que ninguém, meu velho, que livros sobre livros dariam para encher muitas estantes e tempo de leitura. Mas já que falei de ser um livro infantil, tem um em especial que, com muito humor e oportunidade, mostra para crianças e adultos que um livro é o que é porque “É um livro”. De Lane Smith, da Companhia das Letras. Tem muito e-book se revirando no tablet.

Albuquerque, Novo México, 16 de março de 2017

FullSizeRender

E aí, meu velho?

Preciso dividir uma traição com você. Durante muito tempo, acreditei que nada seria melhor do que ler um bom livro. Na verdade, continuo acreditando nisso. Refazendo a frase: sempre acreditei que o livro é a forma mais atraente para contar uma história. E olhe, meu velho, que numa ordem de grandeza, o cinema e o teatro permanecem perseguindo vocês na arte de contar histórias e desnudar a nossa natureza.

Mas nenhum dos dois conseguiu roubar toda a minha atenção e devoção por vocês. Sou apaixonado pelas formas de expressão humana, mas é para vocês que dedico a maior parte do meu cartão de crédito.

E não me leve a mal: acho que beira a obsessão. Quer dizer, eu achava, até que algo surgiu e aí, a minha pequena traição começou a acontecer.

Como não sei nunca por onde você anda – uma estante, uma bolsa de viagem, uma cabeceira ou o revisteiro do banheiro – não posso garantir que você tenha assistido ao seu principal concorrente hoje em alguma tela perto de você: as séries.

Se você já viu algum desses fenômenos acontecerem na sua frente, em alguma tela aí onde moras, deve também ter sentido, que assim como um bom livro não se larga, uma boa séria não se para. Como se não bastasse eu ter que viver a angústia da escolha entre tantos iguais a você, agora ainda vivo a outra obsessão: acompanhar várias séries ao mesmo tempo.

Há várias explicações para isso. Claro que a hipnótica associação de imagem e som é uma delas. Mas no caso das séries, há ali, uma forte maestria que só os livros conseguiam: o tempo para o envolvimento. Claro que, como os livros, nem todas as séries são boas nem merecem chegar até o final. Mas hoje, existem muitas séries de alta qualidade. E aí é que mora o problema: não há tempo para tudo. A traição se dá por isso: troco vocês por elas em alguns bons momentos.

Hoje, na cabeceira, o livro e o controle remoto lutam por espaço. Acredito que boas séries são como bons livros. Você pode achar que é autoengano para diminuir minha culpa com você e os seus. Honestamente, não. Porque no fundo, ambos, livro e série, quando de qualidade, têm a mesma essência: o texto. Eu já acreditava nisso, até que li um amigo seu de entrevistas com roteiristas de séries. Um desses roteiristas construiu uma teoria interessante. No cinema, os grandes “autores” dos filmes não são os roteiristas; são os diretores. E por quê? Porque o cinema veio da imagem, não da palavra. O cinema era mudo; cabia a sequência de imagens construir a história, não o texto falado. Depois, isso mudou, mas ainda assim – e injustamente-, os roteiristas têm pouco poder na sétima arte.

Nas séries não. A origem dos seus criadores é o rádio. Era a palavra falada que mandava. Eles migraram para a TV, onde o texto era o grande valor. A novela radiofônica no Brasil formou as novelas como conhecemos (longas demais, a meu ver).

Portanto, talvez eu olhe uma temporada de uma série como um livro; com o tempo dramático certo para a construção dos dilemas dos personagens. Se você já “ouviu” as séries pelas suas orelhas, deve ter percebido a quantidade de falas dos personagens. Não quero inventar uma desculpa para compensar meus momentos de traição. Mas vale lembrar que, assim como no cinema, muitas séries nascem totalmente ou inspiradas num velho bom amigo como você aí. Você pode até não saber, mas quem sabe já não foi para a tela como uma série de sucesso?

O que me resta é ser mais disciplinado e dividir o tempo e os locais para me dedicar aos dois (fora tudo que já tenho que me dedicar). Mas não se preocupe porque vocês ainda são os meus melhores amigos (tirando uma meia dúzia de bípedes e, na atual ausência, dos peludos quadrúpedes).

Ah, sim. Antes que eu termine, uma questão para pensar: você prefere ser lido ou filmado?

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

PS: Como disse Millôr Fernandes, “uma imagem vale mais que mil palavras. Mas tente dizer isso sem palavras”. Portanto, nada melhor do que falar sobre séries do que lendo. E têm dois livros em especial que valem a pena: “Na sala de roteirista”, de Christina Kallas, e “Homens difíceis”, de Brett Martin.  Tão fascinante quanto ver uma série é descobrir os caminhos que cada um segue para roubar a nossa atenção, temporada após temporada. Mas uma coisa já adianto: os grandes roteiristas admitem que, antes de mais nada, foram grandes leitores. Ponto para vocês, meu velho.

Sambódromo, 9 de março de 2017

Unknown

E aí, meu velho?

O carnaval se foi e o mundo voltou a ser o que era: um tanto menos alegre, mais chato em alguns casos, mas não menos desastroso do que alguns carros alegóricos no Sambódromo. E vamos deixar o assunto Trump apenas com os mascarados nos blocos.

Como foi aí para você da sua estante? Viu blocos passando na rua ou a sua única janela para a folia foi a TV em frente?

Talvez tenha chegado às suas orelhas que o Cristo, mais uma vez, virou polêmica na avenida. A minha escola Mangueira, juntou todos os santos e fez um belo tripé com o Cristo de um lado e Oxalá do outro. Estes temas devem dividir espaço na estante com você.

Sem entrar no mérito de que a Igreja deveria se ofender menos com a fé afrodescendente e cuidar de seus problemas (que são bem maiores que um desfile de carnaval), lanço uma pergunta: ao seu lado existe algum semelhante escrito por Richard Dawkins? Porque pergunto: se você conhece a obra desse etólogo, biólogo evolutivo e escritor britânico, sabe que ele não acredita em Deus nem em vida após a morte.

Não acredita e pronto. Ele é darwinista, evolucionista e ateísta. Dawkins é antirreligião. Tive a oportunidade ouvir sua palestra na Flip de 2009 (você já ouviu falar na Flip? Numa próxima carta conversaremos sobre essa feira literária) Para um cientista é até um bom piadista. Fisicamente, passaria fácil como membro do Monty Phyton.

Eu gosto de Dawkins. Mesmo que a gente não precise necessariamente dele para achar que Deus é uma invenção do homem. Têm as reportagens de todos os dias para mostrar que se ele existe, nunca pisou na periferia ou desconhece onde fica a Síria.

Passaria horas de papo com ele, tomando cachaça e lançando o desafio: será o carnaval um delírio? Porque sem Deus, não existiria letra de samba e, consequentemente, o próprio carnanval.

Numa roda de samba, como ele cantaria “Ai, ai, meu Deus, tenha pena de mim?”. Seria constrangedor ter que pedir a roda um “leva aí”: “Ai, ai, meu Darwin…”.

E o clássico “Valei-me Deus, é o fim do nosso amor…”? Ficaria mais lógico com “Valei-me o Gene, é o fim do nosso amor…”. Sem olhar no Google, posso estimar que a palavra “Deus” aparece 1.577.345 vezes em letras do cancioneiro popular.

Confrontado com esse fato, Dawkins talvez revesse suas convicções antirreligiosas e permitisse a existência de Deus no samba. Principalmente, se entrasse na roda: “Ô mulata assanhada/ que passa com graça/fazendo pirraça/fingindo inocente/tirando o sossego da gente/(…) Aí meu Deus que bom seria/(…).  Certamente aí, delirando ao ver a evolução da espécie mulataziana, ele deixaria Deus existir pelo menos no samba e acrescentaria mais um “ista” em seu currículo; o de sambista.

Isto é tão possível que seus livros seriam facilmente tema para o Paulo Barros desenvolver enredos e alas criativas no Sambódromo a partir dos títulos: “O Gene Egoísta”, “O fenótipo estendido”, “Deus, um delírio”, “A escalada do Monte Improvável”, “A grande história da Evolução” e imagine,  “O grande espetáculo da terra”! O homem é puro samba! Não nega suas raízes e a influência afro de quem nasceu em Nairóbi, Quênia, mesmo sendo branco como MJ.

Lembro que na época, ao imaginá-lo voltando para seus estudos, seus livros e suas palestras na terra da Rainha, negando Deus e o Diabo, Dawkins levou em sua mala, a camisa que usou durante a palestra: preta com folhagens brancas, no melhor estilo Osklen tristes trópicos. E, certamente, impregnada dos cheiros da terra mais católica do planeta.

Tenho certeza que ele não mudou de opinião sobre a existência divina. Mas se visse o Cristo e Oxalá da Mangueira juntos na avenida, pensaria: “God sabe the Carnival”.

Fica com Deus. Isso, claro, se você não for um exemplar escrito pelo Dawkins.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

PS: como falei tanto sobre samba e carnaval na carta anterior, vou me ater apenas ao belo livro de “Orixás. Os Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo”, de Pierre Fatumbi Verge. Se você o encontrar na estante, apresente aos Dawkins que por acaso existam aí. Evolucionistas ou não, sempre vale uma consulta aos santos. Vai que…

Rio – Los Angeles, 23 de fevereiro de 2017

Oscar3

E aí, meu velho?

Como diria Calvin para Harold em seus quadrinhos, “as semanas andam cheias” e acabei atrasando a entrega da carta da semana passada. Você deve ter pensado que me perdi na pré-folia de Carnaval e esqueci o amigo. O motivo não foi tão prazeroso assim, mas o que importa é que os blocos estão na rua, o Carnaval está chegando e, certamente, onde você vive, haverá alguém que acordará cedo em busca de mais um dia pagão.

Confesso que amo samba e Carnaval, guardadas as devidas proporções de comodidade e preguiça que hoje me cercam como um mestre-sala. Tenho um profundo amor pelo samba e por suas histórias e, na estante de cá, sempre abro alas para mais um deles entrar.

Normalmente, pessoas se dividem entre escolher a folia até acabar na quarta-feira (ou se acabarem bem antes disso), enquanto outros procuram uma distância suficiente para que o único som de percussão mais próximo seja o de um pica-pau numa árvore.

Mas há os conhecidos foliões das letras que, diante do desinteresse pelo “mundo Carnaval”, preferem outros enredos: os dos livros. São alheios ao chamado da vida lá fora (e suada), preferindo que outros personagens mais fantasiosos tomem o lugar da vida real e puxem o cordão para outra diversão. Fica-se sem beijo na boca, mas a cerveja no freezer está garantida e gelada.

Sugiro que na sua próxima carta você me conte se o leitor que habita onde vives é de samba no pé ou pé para cima. Até entendo que o longo feriado seja tentador para descansar o corpo, porque a mente hoje já não se resolve pela distância; é preciso que se desligue da vida, enterrando o celular.

Eu tento equilibrar os dias ociosos: nem tanto ao bar, nem tanto à festa. Um bloco aqui e ali; uma birita com os amigos lá e cá; um pouco de boa leitura e uma série ou outra para me viciar. As outras coisas deixo no fórum interno. Tenho a cumplicidade nesse enredo numa afinada parceria com a minha colombina de tantos anos.

O fato é que esse Carnaval vai virar filme: quando a primeira escola entrar na avenida no domingo, outros componentes estarão lá na ensolarada Los Angeles, vivendo o momento mundial do cinema.

O que me leva a pensar que as duas grandes festas combinam e dariam ótimos enredos de livros de samba ou cinema para esses quatro dias (ou cinco?). Com a vantagem de que o leitor participa dessas duas grandes festas lendo de camarote, no ar-condicionado.

Afinal, Carnaval e Oscar tem tudo a ver, principalmente se olharmos para aquelas fantásticas atrizes evoluindo no tapete vermelho em busca do sonho dourado, ao som da premonitória marchinha:

“Nós, nós os carecas

Com as mulheres somos maiorais

Pois na hora do aperto

É dos carecas que elas gostam mais”

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve, se o samba não me chamar.

L.

PS: Você sabe, meu velho, que em matéria de samba e cinema, a bibliografia daria para vários Carnavais. Cartas então, uma para cada assunto pelo menos. Mas ficando no básico para os dias de Carnaval (o oficial, porque já são muitos), eu abriria o bloco de leitura carnavalesca com o recém-lançado “Uma história do samba: as origens”, de Lira Neto, da Companhia das Letras. É o primeiro de uma trilogia, o que já garante outros Carnavais. Se o leitor for um sambista que não desiste nunca, vale garimpar pelos esgotados “Geografia Carioca do Samba”, de Luiz Fernando Vianna, e “Heranças do Samba”, com Aldir Blanc e outros autores. Ambos foram editados pela Casa da Palavra (hoje Laya) e estão lá na estantevirtual.com.br. Vi que o preço está salgado. Mais um motivo para ler com cerveja. Chamaria para a roda também o “Almanaque do Samba”, de André Diniz, pela Zahar Editora (dá para ler um verbete entre uma escola e outra). Falando em escolas, tem o clássico “Escolas de Samba do Rio de Janeiro”, de Sergio Cabral “pai”, e “Carnaval Carioca – dos Bastidores aos Desfiles”, de Maria Laura Viveiros, uma tese editada pela UFRJ (só em sebo também, virtual ou real). Passando para a passarela do cinema, eu não cairia da obviedade de “histórias do Oscar”. Sugiro dois livros de um crítico americano Roger Ebert: “Grandes Filmes” e “A magia do cinema”, ambos da Ediouro. Como são críticas, o leitor pode ler um ou outro sobre o filme que interessa, inclusive ganhadores do Oscar. Vamos ficar só nesses dois, meu velho. Afinal, a festa do cinema é só um dia; o Carnaval tem prioridade e pede passagem. E vamos àquela cerveja que o tema pede.

Rio, 9 de fevereiro de 2017

nickg1

E aí, meu velho?

Tenho evitado trocar com você minhas impressões sobre o mundo de cá. Adianto que não são nada boas e, me parece, serão temas de futuros companheiros seus de estante. Encherão muitos espaços e torço para que não roubem totalmente a diversão da leitura ou a inocência dos seus companheiros infantis.

Sei que muitos se perguntam até que ponto um livro pode formar pessoas melhores. E acho que, às vezes, você mesmo deve se perguntar: “Como assim? Não jogue sobre minha capa toda essa responsabilidade.”

O problema, meu velho, é que por mais que usemos vocês para tentarmos entender um pouco o que somos e porque fazemos o que fazemos, ainda assim, acho uma batalha com poucas vitórias. Claro que é melhor com vocês. Claro que lutarei até o último livro pela busca de novos leitores. Que será sempre o meu presente prioritário, meu assunto preferido, meu feliz saldo negativo no banco por ter outros como você. Sempre será melhor ter um livro para ler e um leitor para nascer.

E me desculpe meu velho se esta carta não está sendo muito prazerosa. Assim como livros, também temos nossas páginas ruins pelo meio do caminho. Até porque nem toda grande história é feita de bons finais. Na verdade, são mais memoráveis quando deixam um nó na garganta ou uma pergunta no ar.  Mas nós podemos escolher fechar a última página e partir para outro livro. Na vida real nem sempre esse gesto é tão simples.

Livros de história me passam a sensação de que sabemos, mas não aprendemos. Sei que a culpa não é sua nem dos seus amigos de história.

Mas volto à pergunta: ler faz pessoas melhores? Acho meio sem propósito dar a vocês a responsabilidade de serem mentores do caráter humano. Vocês são uma escolha. Todo o resto é inevitável. Família, leis, relações (pois nem todas poderão ser evitadas); formam uma grande parte do que somos.

Não tenho dúvida que seríamos piores se vocês não existissem. Notícias ou comentários ditos num jantar ou na TV ligada na sala devem chegar às suas orelhas aí na estante todos os dias. E você já deve ter percebido que, diariamente, nos esforçamos para desacreditar que há um futuro. Não que alguém tenha o topete de apertar o botão vermelho. O que se mata do futuro é a esperança.

As bombas jogadas do alto ou que explodem sobre duas pernas, transformando em pó a caminhada de outros, também podem chegar até vocês. No início deste ano, uma livraria em Florença foi alvo de um atentado à bomba que só não aconteceu porque foi descoberta e desativada antes. Quando li a chamada, fiquei indignado. Mas ao ler toda a notícia e descobrir que a livraria era administrada por um grupo neofascista, minha indignação diminuiu. Mas não deveria. Amenizei a atitude mais radical porque a livraria representava um pensamento contrário ao meu. Fui menos crítico porque afinal, o pensamento fascista deve ser combatido. Combatido, sim, mas por meios legais. Seria como você não aceitar dividir a mesma prateleira com outro por não concordar com o pensamento que ele representa.

Porque se bombas matam, palavras também fazem grandes estragos por muito tempo. A escravidão foi feita pela força e se mantém até hoje por palavras que tentam justificar sua continuidade em outros moldes. Torturas bárbaras viram infográficos nos jornais. E ainda temos Donald Trump que, todos os dias, apresenta uma “tábua” escrita com os novos mandamentos americanos sobre como discriminar o próximo.

Recentemente, li o livro “A guerra não tem rosto de mulher”, de Svetlana Aleksiévitch. Impressionou-me. Em uma das passagens do livro, uma jovem enfermeira russa conta que, ao levar pães para o refeitório sob frio intenso, cruzou com uma tropa de prisioneiros alemães. Entre eles, havia um menino soldado que “tinha lágrimas congeladas no rosto” e não conseguia desviar os olhos dos pães no carrinho. Sensibilizada, ela entregou um pedaço para ele e viu em seus olhos, a incredulidade por ter ganho o alimento de um inimigo. Sua frase final no depoimento, revela as escolhas que fazemos: “Fiquei feliz… Feliz por não poder odiar. Na época, eu mesma fiquei surpresa…”

É, meu velho. Dolorosos ou não, agradeço à Gutemberg por ter inventado vocês.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

PS: Já que falei de amigos seus que me impressionaram, sugiro também que você busque conhecer um cara chamado “Entre o mundo e eu”, de Ta-Nehisi Coates. O nome é inspirado em um rei egípcio, mas trata-se de um jornalista, escritor e professor americano que escreve um livro em forma de carta para o filho na tentativa de entender  “O que é habitar um corpo negro e encontrar uma maneira de viver dentro dele?”. Mais um motivo para acreditar que livros assim, fariam falta se não existissem. Obrigado de novo por mais esse, Gu.