Santiago – Barcelona, 18 de agosto de 2017

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Mujer, pajáro I, 1973. Fundação Miró, Barcelona.

 

E aí, meu velho?

Tenho sempre uma expectativa de que a próxima carta será mais leve que a anterior. Mas mesmo quando falamos de livros, estamos sempre reféns de momentos complicados, que insistem em pautar as nossas vidas.

A verdade é que um livro é capaz de transformar uma vida, mas não transforma a humanidade. Vocês fazem pessoas melhores? Acredito que sim. Mas há limites até para vocês. Porque uma mesma história pode ser lida da forma que o leitor quiser entender. E esse “entender” gera as justificativas mais absurdas para reinterpretações equivocadas. Cada vez mais, escreve-se menos por linhas tortas, mas se lê bastante entortando as linhas.

Quando me sentei aqui à mesa para escrever essa carta, já me incomodavam as últimas conversas que vinha tendo. Sempre acho que, daí da sua estante, você observa pela janela da TV o que andamos fazendo do lado de cá. Dependendo do gosto do seu leitor, você deve se assustar do quanto somos capazes de escrever histórias tristes, ou pelo menos, o quanto escolhemos contar as mais tristes. Fazendo um paralelo com você, que é um livro, seria como reeditá-lo várias vezes, mudando a capa, a gramatura do papel, até mesmo a tipologia, acrescentando talvez uma revisão do autor, mas contando sempre as mesmas histórias.

Pois é, meu velho. O lado de cá parece gostar de repeti-las, optando pelas piores.

Quanto mais falamos de preconceitos, mais eles insistem em ganhar novas edições. Seja no antissemitismo e no racismo dos supremacistas brancos em Charlottesville, protegidos pela primeira emenda que garante a democracia para o ato mais antidemocrático; se armar e atacar quem não concorda com eles.

Mas como disse, nem bem a gente respira fundo de uma história e lá vamos nós escrever uma pior. Antes mesmo de terminar essa carta, já preciso reescrevê-la com o ataque terrorista em Barcelona sofrido ontem. As imagens, nesse caso, valem mais que mil palavras, porque as palavras são sempre as mesmas de uma história sempre igual: reivindicação do Estado Islâmico, números de mortos que crescem, feridos que lutam para sobreviver, alerta vermelho, ataques em outra cidade espanhola.

Mudam os personagens, novos infelizes que se encontravam ali naquela hora, vestindo bermudas pelo calor do verão europeu, lendo um livro em um banco em LaRampla, despojados de qualquer proteção, além da ilusão de que essas coisas só acontecem com os outros. Analisaremos, falaremos, registraremos e escreveremos. Como fazem os jornais todos os dias, sem muita profundidade, mas com a contundência do fato de que mais uma criança negra ou branca morreu por uma bala em sua escola ou na barriga da mãe.

De novo, desculpe meu velho, por essa carta. Quando a iniciei ontem, tinha a intenção de ser menos triste. Mas os pensamentos obscuros nos levam a pensar de que sempre estamos à beira de repetir uma “solução final” ou um “Fahrenheit 451”. Não que hoje esses pensamentos fluam sem serem denunciados ou reprimidos, mas ainda existem e encontram eco. Dos mais fáceis e dolorosos gritos racistas até o som dos gritos de quem é atingido pelo radicalismo religioso. Como um sino: quem bate sempre, ressoa sempre.

Anos atrás, ao visitar Santiago do Chile, fui às casas do poeta Pablo Neruda. Numa delas, um jovem e simpático guia nos conduziu contando que Neruda tinha paixão pelo mar e que, na arquitetura de suas três casas, sempre se encontravam menções ao tema. Uma sala em forma de proa ou janelas que lembravam escotilhas. Mas como o tempo é seletivo na memória (ainda não estou na fase de ler o mesmo livro duas vezes), não lembro de todos os detalhes sobre Neruda e suas moradas.

Lembro sim que o guia contou sobre o medo de navegar de Neruda, tornando a sua relação com o mar um ato de amor e temor. Somos assim como espécie, meu velho. Amamos e tememos o ser humano. É sempre uma aventura entrar nesse mar de incógnitas que existe em nós.

Mas voltando à conversa, uma das revelações do jovem guia foi pessoal. Não tinha nada a ver com os objetos das coleções particulares de Neruda ou o quadro que retratava a amante e grande amor de sua vida, Mathilde, a última companheira até  sua morte.

Ele revelou que Neruda era vizinho de seus avós, não sei se em La Chascona, La Sebastiana ou La Isla Negra, nomes de suas casas. E que seus avós não tinham uma boa relação com o poeta, pois ele era comunista. Tirando o fato de que o Chile viveu uma das mais violentas e longas ditaduras militares da América do Sul, para os avós dele, a obra e importância de Neruda eram irrelevantes diante da sua escolha política. Para o jovem não: tinha orgulho de Neruda ser chileno e de falar sobre ele, sem comprometer o amor pelos seus avós. Olhava para o contexto histórico daquele momento quando o Chile era presidido pelo anticomunista González Videla antes de Allende ganhar e ser derrubado por Pinochet. Conseguimos ser tão sábios quanto o nosso jovem guia?

Hoje, mais do que nunca, encontramos opiniões arbitrárias que condenam a obra artística pelo pensamento político do seu criador. Não se pede a concordância com o pensamento do outro, mas o respeito, desde que não fira os princípios básicos dos direitos humanos. Mas quando vemos a ignorância comandar opiniões radicais, confundindo as definições históricas do que é o quê, acabamos encontrando as mesmas razões tortas para justificar radicalismos, senão com bombas, com palavras que ferem e motivam outros a ferir.

Existe uma esperança, meu velho? Como escreveu o escritor e professor Charles Kiefer, é um erro imaginar que “a vida imita a arte”. Para ele, “a arte inventa a vida”.

Talvez seja nela e na sua produção que devemos colocar um pouco das nossas esperanças. Como esse menino da foto que, diante do mestre Miró, reinventa a arte no seu traço inocente, mas não menos verdadeiro.

Até a próxima página. Um grande abraço e nos lemos em breve.

L.

PS: Já que falei tanto de Neruda, seus livros de poesia sempre merecem um lugar na estante. Confesso que me apaixonei por “Confesso que vivi”, que para quem gosta ou não de biografias, pode bem ser lido como um romance. Só pelo titulo, você já quer viver a história. Mas há também uma bela homenagem à amizade feita por Vinicius de Moraes ao poeta chileno: “História Natural de Pablo Neruda. A elegia que vem de longe”, da Companhia das Letras, com lindas xilogravuras de Calazans Neto. Diante de tragédias como a de Barcelona, vale não desistir nunca, pois como disse o poeta ganhador do Nobel: “Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo”. Precisamos achar graça em nós, meu velho.

 

 

 

 

 

59 comentários em “Santiago – Barcelona, 18 de agosto de 2017

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